Nutrição

Publicado em 27.07.11 às 16:07 hs

Minimizando o impacto das micotoxinas em Suínos

1 MALLMANN, C. A. ; 2 TYSKA, D. ; 3 MALLMANN, A. O. ; 1 MALLMANN, B. A. ; 5DILKIN, P.1

RAUBER, R.H .

 

1 Médico Veterinário, Dr., Prof., UFSM, CCR, DMVP, LAMIC

2 Acadêmica do Curso de Zootecnia, CCR, UFSM, RS.

3 Acadêmico do Curso de Med. Veterinária, CCR, UFSM, RS.

4 Acadêmica do Curso de Med. Veterinária, UFPel, RS.

5 Instituto de Soluções Analíticas Microbiológicas e Tecnológicas (Instituto SAMITEC) Santa Maria, RS.

 

Introdução

A suinocultura brasileira vem apresentando desenvolvimento acentuado e de forma contínua já por algumas décadas. A incorporação de novas tecnologias, o uso de avanços obtidos por pesquisas e o aprendizado permanente tornaram-se ferramentas quase que essenciais para a sobrevivência no atual mercado da suinocultura, que é extremamente competitivo e demanda das empresas e profissionais um esforço permanente no sentido de atualização. No Brasil, país que figura entre os mais importantes do mundo na produção e exportação de carne e seus derivados, a difusão de conceitos como segurança alimentar e bem-estar animal tornam-se de suma importância.

A qualidade de produtos agrícolas é afetada por diversos fatores como espécie, variedade, condições edafoclimáticas, manejo de adubação, irrigação, controle fitossanitário, época, duração e procedimentos utilizados na colheita. A secagem é outra atividade crítica e tem como objetivos principais a conservação e a preservação, por longos períodos, das qualidades nutricionais e organolépticas desenvolvidas durante a fase de campo. No entanto, 30% da produção agrícola nacional é perdida na lavoura, durante a colheita, transporte e armazenamento inadequados. O excesso de umidade nos grãos representa um dos fatores que resultam na perda do produto, devido a sua associação a outros fatores, como temperatura, umidade relativa e o próprio grão, proporcionando substrato ideal para a proliferação microbiana e de insetos (Lorini et al., 2002).

As micotoxinas constituem uma área do mais alto grau de dinamismo. Entende-se por micotoxicose a intoxicação de animais por micotoxinas, substâncias resultantes do metabolismo secundário de fungos filamentosos. A sua forma de apresentação pode ser aguda ou crônica.

As principais medidas profiláticas consistem em adotar técnicas de cultivo e manejo que inviabilizem o crescimento fúngico, tais como a colheita dos cereais imediatamente após a maturação fisiológica, deixando os cereais menos expostos às intempéries, e a secagem e estocagem em armazéns adequados para cada tipo de cereal ou subproduto. O uso de ácidos orgânicos pode auxiliar na conservação do alimento quando em situações de risco e a utilização de aditivos, quer naturais ou modificados pela adição de compostos enzimáticos ou biológicos aos alimentos, merece maior aprofundamento científico, mas em algumas situações de campo e experimentais, alguns têm apresentado resultados promissores para a espécie suína.

O monitoramento constante e contínuo de micotoxinas na produção de rações, incluindo técnicas de amostragem adequadas à detecção do problema, representa a opção técnica mais eficiente e, do ponto de vista econômico, mais viável, sobretudo para as empresas de médio e pequeno porte. Aditivos anti-micotoxinas (adsorventes) podem e às vezes devem ser utilizados em alimentos contaminados.

Os suínos são atacados por diversas micotoxicoses, em especial a Zearalenona, que causa doenças reprodutivas, sendo a principal delas a Síndrome de Hiperestrogenismo ou Vulvovaginite. Os sinais clínicos, como edema de vulva e mortalidade perinatal, desaparecem com a substituição do alimento contaminado por outro livre de Zearalenona, em um período variável de 3 a 4 semanas. O controle na matéria-prima destinada à produção de ração é a única forma de evitar, com relativa segurança, o desencadeamento do problema. Segundo dados do LAMIC/UFSM, no Brasil, cerca de 43% das amostras de alimentos analisados apresentam contaminações por Zearalenona.

O uso de aditivos antimicotoxinas, protetores hepáticos como metionina e colina via ração tem bom efeito, sobretudo na recuperação do apetite dos animais intoxicados. O uso de seqüestrastes naturais ou modificados pela adição de compostos enzimáticos ou biológicos merece maior aprofundamento científico, mas em situaçòes de campo, alguns têm apresentado resultados promissores.

Entre as centenas de micotoxinas conhecidas, as aflatoxinas são consideradas as de maior importância no Brasil. Diversos compostos já foram descritos como aflatoxinas, porém apenas as aflatoxinas B1, B2, G1 e G2 foram identificadas como contaminantes naturais de cereais e alimentos. A aflatoxina B1 possui como produto de sua biotransformação a aflatoxina M1. Fêmeas gestantes ingerindo grandes doses de aflatoxina em sua dieta poderão causar diarréia hemorrágica e diftérica nos lactantes. Os sinais clínicos e a gravidade da intoxicação por aflatoxinas podem variar em razão da idade dos animais, sendo que os mais novos ou fetos apresentam maior sensibilidade dependendo do tipo de aflatoxina, composição da dieta (dietas com altos níveis protéicos protegem parcialmente dos efeitos tóxicos), tempo de exposição à toxina, estada nutricional e, sobretudo, em razão da concentração de aflatoxinas na ração. Medidas relacionadas com o impedimento ou diminuição do crescimento fúngico e conseqüente formação das micotoxinas na lavoura, bem como nos sistemas de armazenagem, devem merecer especial atenção. A prevenção da formação das micotoxinas deve sempre ser uma das principais medidas a serem adotadas O uso de ácidos orgânicos pode auxiliar na conservação do alimento quando em situações de risco Essa seria a forma mais eficiente e, do ponto de vista econômico a mais viável, sobretudo para a empresa suinícola de médio e grande porte.

Somente o conhecimento da concentração da aflatoxinas, associados à freqüência com que estas estão presentes na dieta permite uma tomada de decisão para, por exemplo, empregar um adsorvente com segurança e eficiência. Pela alta sensibilidade da espécie suína em relação a maioria das micotoxinas, especialmente aflatoxinas, o uso de adsorvente deverá ser indicado quando,pelas experiências de campo, houver uma contaminação de mais de 50% das amostras e uma concentração média superior a 10 g/kg. Essa recomendação deve, evidentemente, ser considerada em razão de fatores como ambiência, faixa etária ou composição da dieta, sendo necessária a reavaliação de cada situação em particular. Alguns dos adsorventes avaliados no LAMIC/UFSM mostraram capacidade de absorção de aflatoxinas in vitro superior a 90%, quando submetidos a avaliações em fluídos orgânicos, o que deve ser o critério mínimo para o9 emprego de um produto com o objetivo de evitar, pelo menos parcialmente, os efeitos tóxicos das aflatoxinas presentes no alimento. Na tabela 1 estão apresentados os valores de contaminação máximos, estabelecidos pelo LAMIC para Suínos.

Os suínos apresentam também, alta sensibilidade as Fumonisinas, que por sua vez, induzem sinais clínicos e lesões de edema pulmonar. Os sinais clínicos característicos da fumonisina-toxicose aguda em suínos são evidenciados pela dificuldade respiratória e cianose resultantes da formação do edema pulmonar. As intoxicações crônicas são mais freqüentes e se caracterizam pela diminuição da produtividade do rebanho. A intoxicação dos suínos por fumonisinas não tem tratamento específico. Os sinais clínicos da intoxicação aguda dos animais desaparecem em torno de 3 dias após a remoção do alimento contaminado.

A profilaxia consiste na adoção de medidas que inibam o desenvolvimento fúngico em cereais e produtos utilizados na dieta, e/ou adoção de um programa de monitoramento da presença da micotoxina no alimento, impedindo que esta seja veiculada pela dieta por um período suficientemente longo, capaz de induzir a intoxicação.

Os Tricotecenos (TCT) formam um grupo de metabólitos quimicamente semelhantes e são divididos em grupo A e grupo B. Os principais integrantes do grupo A compreendem a Toxina T-2, toxina HT-2, e diacetoxycirpenol (DAS). Os principais componentes do tipo B são o Deoxinivalenol (DON ou Vomitoxina), fusarenon- X e nivalenol. Ocorrem em diversos cereais e subprodutos, sobretudo quando cultivados no inverno cujas condições de temperaturas amenas e altas umidades favorecem o desenvolvimento dos fungos produtores dessas micotoxinas. Em suínos, induzem à formação de lesões úlcerativas no sistema digestório e dermatites, além da recusa da ingestão de alimentos, o que tem importância para o diagnóstico clínico. Assim, os animais apresentam diminuição do desempenho produtivo e depressão do sistema imune. O diagnóstico presuntivo se baseia na observação dos sinais clínicos dos animais intoxicados por meio de análise de dados ambientais referentes à colheita de dados ambientais referentes à colheita e ao armazenamento dos cereais utilizados na alimentação dos suínos.

Para todas as espécies cronicamente afetadas por TCT, há um excelente prognóstico, desde que a fonte de alimento contaminado seja removida. A troca de alimento contaminado por outro livre da toxina deve ser a primeira medida. Especialmente em toxicoses crônicas, aconselha-se fornecer um alimento de alto valor nutritivo, evitar estresse e controlar as infecções secundárias. Em intoxicações agudas e superagudas, o tratamento mais adequado pode ser a administração via oral de um adsorvente da toxina.

 

 

Assim, uma das principais medidas profiláticas consiste em adotar técnicas de cultivo e manejo dos grãos que inviabilizem o crescimento de fungos, como colheita dos cereais imediatamente após a maturação fisiológica, deixando-os menos expostos às intempéries, secagem e estocagem em armazéns adequados para cada tipo de cereal ou subproduto.

Os suínos apresentam também alta sensibilidade a Ocratoxina A, que afeta principalmente o rim. Ocorre diminuição da ingestão de alimentos e piora na conversão alimentar. Não existe tratamento específico para suínos intoxicados por Ocratoxina A, no entanto algumas medidas devem ser imediatamente implementadas no sentido de reduzir os efeitos da toxina nos animais expostos, como tratamentos de suporte a fim de melhorar as condições orgânicas dos animais afetados.

Assim, o controle e gerenciamento de micotoxinas implicam em um processo que apresenta uma série de atividades críticas, iniciando pela amostragem, passando por uma gama de análises e controles concluída na tomada de decisão, a qual deve considerar o uso seguro da dieta de forma que o risco de intoxicação por micotoxinas possa ser minimizado e que o custo benefício seja exatamente quantificado, permitindo a maximização da produtividade do rebanho e lucratividade da atividade.

 

Referências Bibliográficas:

MALLMANN C. A.; DILKIN, P. Micotoxinas e Micotoxicoses em Suínos 240 p.Editora Pallotti.

MALLMANN C. A.; DILKIN, P. Doenças dos Suínos. P 461-487. Editora Pallotti.

LAMIC – Laboratório de Análises Micotoxicológicas, 2008. Disponível em: <http://www.lamic.ufsm.br>.

LORINI, I.; MIIKE, L. H.; SCUSSEL, V. M. Armazenagem de Grãos. Instituto Bio Geneziz. P. 289 – 307. 2002.

 

 

 

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