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Publicado em 06.01.09 às 17:01 hs

Maria Stella Saab - “Não adianta produzir se o consumidor final não pagar pelo produto”

Pesquisa mundial dita novos caminhos para o consumo de carne suína

Que motivos levam um consumidor de Santa Catarina a escolher no supermercado uma bandeja de filés de lombo suíno? Como o suinocultor da Grécia pode produzir uma carne mais saborosa? Que novos pratos prontos podem surgir na China? Encontrar respostas para perguntas assim é a tarefa de um levantamento audacioso estruturado pelo Q-PorkChains, um projeto de pesquisa integrado entre 51
instituições (Universidades, empresas e institutos de pesquisa) da Europa, América e Ásia, que pretende melhorar a qualidade dos suínos e dos produtos derivados ao longo de toda a cadeia produtiva, adaptando-os à demanda do consumidor. A pesquisa foi realizada em importantes produtores. Grécia, Bélgica, Dinamarca, Polônia, Alemanha, Brasil e China. Quatrocentos e oitenta consumidores foram ouvidos, divididos por sexo (metade mulheres, metade homens), idade (acima e abaixo de 45 anos) e moradia (um terço da área urbana, 1/3 de área rural com intensa produção de suínos e 1/3 de área rural com produção suinícola de pequena intensidade).

A idéia é definir com precisão que tipo de produto final mais agrada aos consumidores. No Brasil, foram ouvidos consumidores de oito cidades: Curitiba e Ponta Grossa, no Paraná; Porto Alegre e Santa Rosa, no Rio Grande do Sul; Goiânia e Rio Verde, em Goiás; e Cuiabá e Campo Verde, em Mato Grosso. Os entrevistados foram selecionados aleatoriamente e as entrevistas foram pessoais, com uma duração de até uma hora, e realizadas no fim de março, em açougues e supermercados. “A Região Sul foi escolhida pela tradição na produção e a descendência européia. O Centro-Oeste entrou por ser uma nova área de produção, com propriedades maiores, mais profissionais e uma população bem diversificada”, explica Maria Stella Melo Saab, doutoranda em Administração pela Universidade de São Paulo e integrante da Fundace, a instituição integrada por professores da Faculdade de Engenharia e Administração da USP em Ribeirão Preto e criada para coordenar o levantamento no Brasil.

O trabalho revelou as características de consumo (tipo de produto, freqüência, companhia na hora da refeição, local de consumo); estilo de vida; entendimento sobre questões ambientais do planeta, bem estar animal e produção tecnológica, e a percepção dos consumidores sobre detalhes da cadeia de produção da suinocultura. “Queríamos entender com profundidade a maneira como cidadãos se relacionam com a produção de suínos e os problemas que o setor enfrentará nos próximos anos. As maneiras como os derivados de carne suína são percebidos, escolhidos, preparados e consumidos, incluindo tendências, necessidades emergentes e as brechas do mercado”, detalha Maria Stella. E a “receita” de sucesso já foi apontada. Quinze novos conceitos de produtos serão testados com segmentos de consumidores, medindo a qualidade, o diferencial e a pré-disposição em pagar. O projeto foi apresentado em detalhes durante a PorkExpo 2008, realizada em Curitiba, em conjunto com a Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS). E foi para mergulhar um pouco mais neste assunto que a revista PorkWorld conversou com Maria Stella. Acompanhe.

REVISTA PORKWORLD - Como nasceu o Q-PorlChains?
MARIA STELLA MELO SAAB -
O Q-PorkChains é um projeto integrado, custeado pela União Européia, reúne 51 parceiros de 19 países, incluindo instituições de pesquisa e indústrias trabalhando no setor de carne suína e derivados na Europa, no Brasil, na China, África do Sul e nos EUA. Começou a partir de um trabalho conjunto entre a Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade de Aarhus e a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Copenhagen. A FUNDACE é um desses parceiros. Tem como objetivo desenvolver produtos de alta qualidade em sistemas produtivos sustentáveis com baixo impacto ambiental. O Q-PorkChains é composto por 9 módulos: Pesquisa (análise do mercado e consumidor, do qual a FUNDACE faz parte), Sustentabilidade (produção rural), Desenvolvimento de produtos, Integração e gerenciamento sustentável das cadeias produtivas, Biologia molecular e Síntese do Conhecimento (qualidade e segurança da carne e bem estar dos suínos). Dois outros módulos permitem que os resultados obtidos sejam explorados e colocados em ação. No Módulo A, novos resultados serão incorporados em cadeias piloto e de demonstração em cooperação com empresas pequenas e médias. No Módulo B, novidades e novos conhecimentos serão disseminados aos interessados em todos os níveis. Novos conhecimentos também estão sendo disseminados através da homepage do projeto, newsletters, press-releases, conferências etc.

PORKWORLD - Por que iniciar o trabalho com os consumidores por meio de uma
pesquisa tão profunda?
MARIA STELLA MELO SAAB -
Desde que se estuda uma cadeia agroindustrial, a idéia é que se parta de um estudo do consumidor final. E, a partir do conhecimento sobre o que este espera encontrar em um produto, faça fluir a comunicação por toda a cadeia, desde a pesquisa genética (no caso de alimentos vindos de animais, como é o caso do Q-Porks), até o varejo. Para que este possa oferecer ao consumidor exatamente o que ele deseja. Na verdade, se o consumidor final não pagar pelo produto ao final da cadeia, não adianta produzir.

PORKWORLD - Qual o dado mais interessante que vocês levantaram sobre o consumidor brasileiro e o europeu?
MARIA STELLA MELO SAAB -
Um dado muito importante é que o consumidor brasileiro consome a carne suína principalmente nos finais de semana e ocasiões especiais. Isto, com certeza, deve-se mais ao fato da maneira como ela é apresentada no varejo do que à sua preferência. A carne suína é bastante conhecida pelo consumidor. Até porque na questão que se refere à penetração da carne suína no consumo, os níveis foram todos elevados, em todos os diferentes produtos questionados. Mas não é um produto que se consome com freqüência, a não ser os embutidos (presunto, mortadela, salame), que são consumidos com mais freqüência.

PORKWORLD - O suíno ainda é visto pelo brasileiro como um animal sujo, com carne gordurosa e que pode fazer mal à saúde? Por que esta imagem ainda persiste?
MARIA STELLA SAAB –
Sim. Porque as mudanças tecnológicas, tanto na genética quanto no manejo dos suínos, aconteceram de maneira muito rápida e o consumidor ainda não foi informado disto. O consumidor ainda vê o porco como um animal criado no chiqueiro e alimentado com lavagem, o que não tem nada a ver com a criação atual nas granjas de suínos. A produção industrial vem crescendo. É moderna, altamente tecnificada e muito praticada nas granjas comerciais no Brasil. Já a produção doméstica, feita em fazendas onde a produção de suínos não é a principal fonte de renda da propriedade, vem somente caindo nos últimos anos.

PORKWORLD - A pesquisa foi feita em países que consomem muita carne suína, como a Dinamarca, e o Brasil, onde a carne de frango e bovina estão na frente. Os resultados não podem se confundir?
MARIA STELLA SAAB -
A pesquisa foi realizada em 5 países europeus, na China e no Brasil. E a idéia é justamente investigar as diferenças e comparar a maneira como as pessoas se relacionam com a carne suína e com a produção de suínos como consumidores e cidadãos.

PORKWORLD - No Brasil, vocês optaram por deixar de fora os consumidores do Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores cidades. Por quê?
MARIA STELLA SAAB –
Porque apesar de serem as cidades mais importantes em termos de consumo, que é uma parte bastante importante da pesquisa, existe outra fundamental que é a da visão do cidadão a respeito da produção rural. E achamos que nessas grandes cidades o consumidor está muito longe da produção e, portanto, não conhece nada sobre o assunto e não está muito interessado em conhecê-lo.

PORKWORLD - A partir de agora, que os dados foram coletados e inicialmente tabulados, o que vai ser feito?
MARIA STELLA SAAB -
Agora estamos fazendo as análises e comparações entre os diferentes países. Daí, sairão algumas teses de doutorado, inclusive a minha, e vários artigos científicos a serem publicados em revistas do setor e congressos. Além disto, faremos a divulgação através de palestras como as que eu realizei na PorkExpo 2008, na Associação Paulista dos Criadores de Suínos (APCS) e através de revistas como a PorkWorld, o que é muito importante para nós.

PORKWORLD - Os produtores e empresários brasileiros do setor vão poder partilhar dos resultados deste trabalho? De que maneira?
MARIA STELLA SAAB –
Sim. Desde que mostrem interesse, posso mostrar os dados, fazermos as análises, inclusive comparando entre as diferentes regiões pesquisadas. Podemos, inclusive, expandir a pesquisa a outras regiões dentro do Brasil, aumentar a amostra, que foi restrita devido ao orçamento e às limitações do projeto. Ele previa a realização de 480 entrevistas por país e não tivemos como sair disto. Por isto, limitamos a 8 cidades. Mas podemos usar a mesma metodologia e fazer novamente a pesquisa, incluindo os grandes centros urbanos e consumidores, como São Paulo e Rio de Janeiro, como foi comentado aqui.

PORKWORLD - Quais os principais desafios apontados pela pesquisa para o produtor?
MARIA STELLA SAAB -
Conseguir transmitir os ganhos recentes da suinocultura brasileira ao consumidor final, mudando a imagem que ele ainda tem sobre a carne de porco. Na verdade, este elo da cadeia está fazendo muito bem a sua parte e está muito bem representado pelas suas associações, já que a ABCS tem feito um trabalho maravilhoso com a campanha “Um Novo Olhar sobre a Carne Suína”, juntamente com associações estaduais como a APCS.

PORKWORLD - E os desafios apontados para a Indústria, quais são?
MARIA STELLA SAAB -
Diversificar, incluir novos cortes, menores, mais fáceis e rápidos de preparar, que é o que o consumidor espera e deseja nos produtos. Mais uma vez, se o produtor for muito bom no que faz, mas o consumidor final não comprar o produto, nada adianta.

PORKWORLD - E novos pratos, podem ser criados para abocanhar algum nicho de mercado pouco explorado hoje? A senhora pode dar alguns exemplos?
MARIA STELLA SAAB -
Muitos novos produtos podem ser introduzidos. Basta um pequeno esforço e investimento da indústria e do varejo. O brasileiro já gosta muito da carne suína, tendo inclusive sido atestado em pesquisas que ele a prefere
por causa do sabor. Mas por falta de conveniência (cortes grandes e de preparo demorado) e de variedade (só se vende pernil e lombo), ele opta pelos produtos de proteína animal mais convenientes, como a imensa variedade de semi-elaborados de frango.

PORKWORLD – A senhora pode dar alguns exemplos?
MARIA STELLA SAAB -
É muito importante que se introduza a carne suína no dia-a-dia do brasileiro, que ela pare de ser consumida apenas em ocasiões de festa. O pernil do Natal já é tradicional, assim como as grandes festas de porco no rolete. O brasileiro precisa aprender a comprar. E, aqui, eu vou imitar o pessoal da ABCS: carne suína moída para rechear o pastel ou fazer o molho a bolonhesa do espaguetti, fazer bife de alcatra suína. Mas, para isto, a indústria e o varejista têm que aprender a fazer esses cortes e a vender esses produtos. Porque não adianta o consumidor querer e não encontrar o produto à venda. Na linha de restaurantes também há muito o que fazer. Quase não se encontra opções. Nas redes de fast food também não. Nas praças de alimentação de shopping centers, encontram-se diversos tipos de carne de bovinos, frango e até peixe, mas muito pouco de suínos. E a existência destes produtos serviria para criar ou aumentar o hábito de consumo no consumidor brasileiro.

PORKWORLD - A próxima etapa do projeto, que é a seleção de 15 novos produtos, quando começa? A senhora pode adiantar algo sobre a “cara” desses novos produtos?
MARIA STELLA SAAB -
Uma equipe já realizou as primeiras entrevistas na França, em outubro, durante o Salão Internacional da Alimentação, em Rennes, com especialistas. Este encontro anual, o terceiro desde o início do projeto, deve reunir cerca de 120 pessoas de todas essas instituições para discutir e disseminar os resultados que estão sendo obtidos nos diferentes módulos do projeto, mas ainda não temos idéia de como os produtos serão. A intenção é que sejam gerados 70 novas idéias, que resultem em cerca de 15 novos produtos. Mas dada a imensa variedade de produtos que já existe aqui na Europa, eu imagino que será um esforço bastante grande, o que não aconteceria se se estivesse falando de Brasil, onde qualquer pequeno esforço pode gerar uma enorme variedade de novos produtos.

PESQUISA NO BRASIL
• 50% de casados
• 25% não-casados, mas morando juntos
• 10% de solitários
• 9% divorciados
• 6% viúvos

 11,6 % nível colegial, universitário ou acima
 44,5 % nível escolar secundário
 29,1 % nível escolar primário
 14,9 % nível básico

CONSUMIDOR BRASILEIRO
 produto consumido uma vez ao ano no mínimo
 o pernil é o produto com maior penetração entre 11 citados
 gosta de salames, presunto, mortadela, costela, lombo e bisteca
 salsichas e alguns pratos como feijoada também são citados
 come mais suínos preparados ou finalizados em casa
 patê é o produto menos consumido
 compra pouco miúdos como rabo, toucinho e orelha
 quer cortes novos, menores e mais produtos processados
 quer menos gordura na carne.

fonte: Revista PorkWorld - Edição 47.



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