1- Parte do trabalho de conclusão de curso do primeiro autor; 2- Mestrando em Zootecnia, Unesp-FCAV-Jaboticabal – aderbalcavalcante@bol.com.br ; 3- Professor do CCA-UFPB.
Palavras chave: Consumidor, carne suína, perfil, marketing.
INTRODUÇÃO
Vários estudiosos de comportamento e consumo, há tempos, buscam saber sobre os consumidores, quais seus desejos, necessidades, enfim, o que eles almejam. Na suinocultura, não é diferente. Com a crescente exigência do consumidor, no que diz respeito à sanidade, segurança alimentar, rastreabilidade e qualidade, associadas à necessidade de aumento do consumo, ações estratégicas estão sendo discutidas e praticadas na tentativa de beneficiar toda a cadeia (CAVALCANTE NETO, 2003).
Este trabalho tem como objetivo caracterizar o perfil do consumidor e do mercado da carne suína “in natura” na microrregião de João Pessoa-PB, constituindo-se em uma contribuição para a cadeia produtiva de suínos e, principalmente, para as indústrias de transformação de carne, na tentativa de melhorar o consumo e aceitabilidade da carne suína no Estado da Paraíba.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi realizado na microrregião de João Pessoa-PB. As entrevistas foram iniciadas através de um questionário previamente elaborado, depois diferenciado e estruturado, para assim dar-se início à coleta de dados. Este teste permite ao entrevistador avaliar a eficiência do questionário e identificar as dificuldades de aplicação do mesmo nas entrevistas, sendo seus resultados utilizados exclusivamente para avaliar a eficiência do questionário e realizar alguns ajustes quando necessário.
O questionário continha 50 questões, o qual foi aplicado a uma amostra de 400 pessoas, garantindo com essa amostragem, o nível de confiança de 95%, ou seja, a margem máxima de erro é de 5% (cinco pontos percentuais para mais ou para menos), de acordo com a fórmula, para um universo desconhecido, proposta por Sâmara & Barros (1997).
Optou-se por entrevistas diretas com questões fechadas, sendo que o entrevistador fazia as perguntas e anotava as respostas. Com o objetivo de garantir a representação da amostra, foi feito um planejamento de controle da aplicação dos questionários, no intuito de se ter uma distribuição heterogênea da população quanto aos parâmetros de estrato social, baseado no modelo de Mattar (1997), sexo e idade.
Os dados foram coletados nos meses de julho e agosto de 2003 e analisados, utilizando-se o programa Microsoft Excel.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A amostra constituiu-se de 60% mulheres e 40% homens, sendo que, destes, 84,6% fazem suas refeições em casa; 7,1% em restaurantes e 8,3% em outros lugares. Em relação à carne mais consumida, a bovina assume a liderança com 61% dos votos, seguida da carne de frango (32,6%) e, por último, a de peixes, com 6,3% do total. Ressalta-se, que 100% dos entrevistados não citaram a carne suína como sendo a mais consumida, tendo esta pouca participação no consumo cárneo da região estudada.
Nesta pesquisa, avaliou-se qual o principal motivo que leva o indivíduo a consumir mais uma determinada carne. Nesta avaliação, a “preferência” foi citada por 36,6% dos entrevistados, seguida pelo “hábito” (22,4%), “sabor” (20,7%), “preço” (11%), “valor nutritivo” (4,1%), “praticidade” (3,7%), “sanidade” (0,8%) e “outros” (0,8%); tal resultado demonstra um dado importante: a sanidade não tem sido identificada como um diferencial absoluto, mas sim como pré-requisito básico para o consumo de carnes no mercado estudado.
Em relação ao tipo de carne, que os entrevistados mais gostam, 41,6% mencionaram, em primeiro lugar, a carne bovina; em segundo lugar, ficou a carne de frango, com 24,7% dos votos. A carne suína ocupa o quarto lugar (7,1%), atrás da carne de peixes (23,9%), ficando à frente apenas da carne caprina (2,4%). Dentre eles, 74,2% consomem a carne suína “in natura” e/ou industrializada, e os demais (25,8%) não.
Os motivos ao não consumo tanto na forma “in natura” como na industrializada estão descritos a seguir: 25,9%, por questões de saúde; 18,8%, por ser “carregada”; 14,2% acham-na gordurosa; 11,7%, não apreciam o seu sabor; 11,2%, afirmam ter nojo; 6,1%, por restrição médica; 4,6%, não apreciam o seu aroma; 1,5%, são vegetarianos; o mesmo percentual (1,5%), alegaram outros motivos e sendo por questões ideológicas;1%, o preço; e o mesmo percentual (1%), não apreciam a sua textura e acham-na indigesta. Entre os que disseram consumir a carne suína “in natura” e/ou industrializada (74,2%), 30,3% rejeitam-na na forma “in natura” só consumindo industrializada, representando um percentual de 50,8% da amostra total, que não consomem-na na forma “in natura”.
Os motivos do não consumo na forma “in natura”, são por: ser carregada (25,8%), questões de saúde (21,8%), achar gordurosa (13,7%), ter nojo (12,9%), não apreciar o seu sabor (10,5%), não apreciar o seu aroma (4,8%), questões ideológicas (3,2%), restrição médica (2,4%), não apreciar a sua textura (2,4%) e por acharem-na indigesta (1,6%). A bisteca é o corte preferido e representa 28,4% dos votos; em segundo lugar na preferência do consumidor, está a costela, com 20,6%; seguida do pernil, com 18,6%. Verifica-se que estes três cortes representam 64,6% da preferência do que é consumido na microrregião de João Pessoa. Em quarto lugar, está o lombo (9,8%), seguido das pessoas que não possuem preferência em relação a esses cortes (4,9%); o pé, orelha e rabo, aparecem com 2,1% dos votos, seguido das vísceras (0,8%); e uma parcela de 14,8% diz preferirem outros cortes, não especificados.
Novos cortes comerciais, como a picanha e o filé mignon, atraem a atenção de 59,7% dos participantes; 38,6% não comprariam estes novos cortes; e 1,7% não souberam dizer se comprariam ou não.
Os consumidores (49,0%) compram a carne suína “in natura” planejadamente; 40,3% por impulso; e 10,7% não souberam informar. Um percentual de 78,8% costumam obtê-la no supermercado; 15,4% na feira; 1,9% diretamente do produtor; e 1,5% não souberam informar onde compram a carne suína. Uma parcela de 89,8% diz se preocupar com a cor, textura, cheiro e apresentação na hora de comprar a carne suína; 10,2% disseram não se preocupar.
O fator mais influente para o consumidor, na hora de escolher e comprar a carne suína, é a limpeza e higiene (29,8%) não só do produto como também do local de venda; 26,1% disseram ser a aparência do produto; 20,6%, a qualidade; 6,4%, o preço; 5,0%, não souberam informar; 4,6%, a finalidade a que se destina à compra; 3,7%, a marca do produto; 2,8%, como sendo outros motivos; e 0,9%, a falta de opção. Nota-se que o preço não é mais um determinante na hora de escolher o produto para o consumo. De acordo com os mesmos, 45,5% acham as embalagens adequadas à venda da carne suína; 43,3% não consideram adequada; e 11,2% não souberam opinar. Dentre estes, 41% consomem produtos fiscalizados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF); 2%, consomem produtos sabidamente não fiscalizados; 53%, não sabem se são fiscalizados ou não; e 4%,não ligam para essa fiscalização. De um modo geral e em comparação com as outras carnes, dos entrevistados, 45,8%, 35,2% e 7,4% acham-na acessível à população, cara e barata respectivamente; 2,3%- disseram ser outra coisa; e 9,3% não souberam classificá-la no tocante ao preço da mesma.
Perguntou-se se pagariam mais por um produto rastreável; 63% afirmaram que sim; 34% não pagariam mais; e 3% não souberam responder. No tocante ao suíno orgânico, 49% disseram que pagariam mais por este produto; 45% afirmaram não pagar; e 6% não souberam dizer se pagariam mais ou não pelo suíno orgânico.
Entre eles, 42,6% dizem consumir raramente; 19,9%, em datas festivas; 7,7%, a cada quinze dias; 7,1%, aos fins de semana; o mesmo percentual (7,1%), menos de uma vez por mês; apenas 5,6% têm o hábito de consumi-la diariamente; 5,1%, duas vezes na semana; 2,6%, uma vez no mês; e 2,6%, afirmam consumi-la três vezes na semana. Os mesmos (50,4%), em suas refeições fora de casa, não costumam encontrar no cardápio pratos que contenham a carne suína, 49,6% afirmaram encontrar. No momento de consumir a carne suína, 74,4% não fazem distinção quanto à temperatura ambiente (frio ou calor); 12,4% preferem saborear esta carne no frio; 5,6% no calor; e 7,7% não responderam. Sobre a composição nutricional da carne suína, 83,6% não se acham bem informados, os demais (16,4%) afirmaram ser bem informados. Eles alegaram (54,3%), que retiram a gordura da carne para consumir; 11,3% não retiram; 31,3% só retiram às vezes; e 3% não souberam informar.
Dos consumidores, 55,7% preferem-na assadas; 20,6% usam-na como complementos em feijoadas; 7,9% grelhada; 6,1% consomem-na frita; 5,7% cozida; e 1,8% preferem-na ensopadas; o mesmo percentual (1,8%) não soube informar sua forma favorita de consumo; e 0,4% consomem-na de outras formas. É consumida, principalmente, em churrascos (40,7%); almoços (37,2%); jantares (10,4%); 2,5% dizem consumi-la em lanches; 0,4% em outras ocasiões; e 1,8% não souberam informar. Para 63,9%, o suíno traz risco para a saúde humana, 11,5% não acreditam neste risco e 24,5% não souberam dizer.
A grande maioria acredita que não se deve comer a carne suína em algum tipo de situação: 92%, por exemplo, quando estão se recuperando de alguma cirurgia ou quando estão doentes; e 8% não acreditam e consomem-na. Os mesmos (79%) não concordam que a carne suína possui baixo colesterol quando comparada à de frango e bovinos, 21% acreditam que sim. Em relação à forma que os suínos são criados, 50,4% disseram não saber como os mesmos são criados; 23,1% disseram que são criados em razoáveis condições de higiene; 17,9% em péssimas condições; 6% alegaram ser em ótimas condições de higiene; e 2,6% acham que é de outras formas. Muitos (66%) não tinham conhecimento sobre a cisticercose; 20% tinham em partes; e 14% afirmaram ter conhecimentos suficientes sobre a mesma.
Os mesmos (43,9%) não souberam informar qual carne poderia transmitir este parasita; 37,8% apontaram a carne suína como transmissora da cisticercose; 9,8% mencionaram a bovina; 7,7 afirmaram que tanto o suíno, como o bovino, caprino e ovino podem transmiti-la; e 0,8% destacaram como sendo a caprina.
Perguntou-se se já haviam visto alguma propaganda de “marketing”, incentivando o consumo da carne suína: 85% disseram nunca terem visto; 12% afirmaram que sim; e 3% não souberam informar.
Com relação ao meio de comunicação, no qual os entrevistados mais se lembravam ter visto propaganda a respeito da carne suína, 58,3% afirmaram terem visto na televisão; 11,1%, em revistas; rádio (11,1%); folhetos informativos (11,1%); 5,6%, em jornais; e 2,8%, em outros lugares. Na opinião dos participantes deste trabalho, a propaganda mais importante, que deve ser feita para esclarecer a população para que o consumidor utilize mais a carne suína “in natura, é: Desmistificar os procedimentos de criação dos suínos, 40,2% dos votos, mostrando que hoje existe, no Brasil, as mais avançadas tecnologias e altos controles sanitários; 33,8% pedem que seja divulgado, pelos médicos cardiologistas, que a carne suína, atualmente, é considerada a outra “carne branca” e tem níveis de gordura e colesterol semelhantes ou até mais baixos do que as outras carnes; 16,2% aconselham a divulgação do sabor e qualidade da carne suína aprovados pelos nutricionistas; e 8,1% pedem a divulgação de receitas e as mais variadas formas de preparar os pratos com a carne suína, com exposição de pratos apetitosos, com cores, cheiros e temperos que agucem a vontade dos olheiros e que dêem “água na boca”.
Finalmente, na opinião dos entrevistados, os maiores empecilhos para aumentar o consumo da carne suína estão descritos a seguir: 35,7% alegam ser a falta de qualidade do produto ofertado; 23% mencionam a falta de sanidade; 19,1% referem-se ao preço; 9,4% dizem ser outros motivos, como, por exemplo, a falta de divulgação da qualidade nutricional da carne suína; 6,8% destacam a pouca apresentação de como essa carne é comercializada, 2,6% não souberam opinar; 2,1% alegaram não haver disponibilidade da carne suína nos locais de venda de produtos cárneos; e 10,3%, pelo fato de só encontrá-la em feiras livres.
CONCLUSÕES
Os dados obtidos indicam que 7,1% dos entrevistados fazem suas refeições em restaurantes e 8,3% em outros lugares, que não suas residência, logo o consumo de carne suína, desta parcela, depende da disponibilidade desta nos cardápios dos locais por eles freqüentados. Cabendo ressaltar que 50,4%, afirmaram que, nas suas refeições fora de casa não costumam encontrar no cardápio pratos que contenham a carne suína.
Uma grande parcela dos consumidores entrevistados alegou não consumir a carne suína “in natura” e, ao mesmo tempo, grande parte dos que consomem demonstrou restrição ao seu consumo. Cabe considerar que a carne suína, para o mercado estudado, necessita de investimentos para a implementação de uma eficiente estratégia de marketing, para que sejam desmistificados os conceitos errôneos, que ainda pairam na população.
Deve-se considerar, ainda, a existência dos que não estariam dispostos a consumir a carne suína “in natura”, alegando que a mesma não é benéfica à saúde por desconfiança dos métodos de criação e por acreditarem que a mesma apresenta risco maior de transmitir doenças em relação a outro tipo de carne.
REFERÊNCIA
CAVALCANTE NETO, A. Caracterização, avaliação e estratégias de desmistificação dos consumidores e do mercado da carne suína e seus derivados no Estado da Paraíba. Trabalho de conclusão de curso (graduação em zootecnia) - Centro de Ciências Agrárias. UFPB, 66f. il. 2003.
MATTAR, F. N. Novo modelo de estratificação socioeconômica para marketing e pesquisa de marketing. In: SEMINÁRIO EM ADMINISTRAÇÃO, 2. São Paulo, 1997. Anais... São Paulo, Universidade de São Paulo, 1997, pp. 243-256.
SAMARA, B.S.; BARROS, C. J. Pesquisa de marketing.3 ed.São Paulo: Makron Books, 1997.220p.
fonte: Anais do II Congresso Latino Americano de Suinocultura





