Wienfried Matthias Leh1, Klaus Pettinger2, Eduardo Ianino Fortes3
1. Introdução
As constantes e imprevisíveis oscilações de mercado, bem como os reduzidos retornos tornaram o suinocultor brasileiro e mundial ávido por tecnologias que otimizem os ganhos de produtividade. Neste contexto, investimentos em genética e nutrição têm sido as principais apostas dos produtores. Contudo, uma tecnologia de simples operação, mas funcionamento sofisticado tem conquistado cada vez mais o interesse dos produtores e demonstrado resultados significativos para suinocultores de todo o mundo: trata-se da alimentação líquida para suínos.
O conceito de alimentação líquida pode ser sintetizado como uma tecnologia capaz de “fornecer aos animais a ração na forma líquida, com água ou ingredientes alimentícios líquidos, geralmente co-produtos da cadeia de alimentos, que reduz o custo da nutrição e a mão de obra, além de melhorar a conversão alimentar” (Orlando, 2009). Em muitos países da Europa, a alimentação líquida está nutrindo mais de 50% dos animais de engorda (YAGÜE, 2010), ou seja, mais da metade das granjas trabalham com a tecnologia que mistura de forma automatizada e mesmo computadorizada ração ou co-produtos secos a água ou co-produtos líquidos, como soro de leite.
O uso da alimentação líquida criou, inclusive, a oportunidade de reciclagem de co-produtos líquidos da indústria alimentícia humana, especialmente na produção suína européia. Isso colaborou consideravelmente para reduzir a necessidade de métodos alternativos de destinação desses co-produtos. (KOELEMAN, 2010).
Apesar de levantamentos apontarem que apenas 2% dos animais terminados no Brasil serem alimentados com dieta líquida, observam-se expressivos retornos, com uma economia entre 10 e 15% de quilo ganho (YAGÜE, 2010). Da mesma forma, os benefícios aos próprios animais tendem a tornar a tecnologia, ainda pouco difundida, na principal alternativa de investimento do ramo suinícola nos próximos anos.
2. Apontamentos Técnicos
Resultados de sistemas mais sofisticados de alimentação líquida demonstram que a tecnologia não proporciona necessariamente ganhos, mas principalmente economia, o que, no final das contas, suscita maior margem de lucro.
Estudo realizado por grande integradora brasileira entre 2006 e 2009 utilizando alimentação seca e líquida em granjas no Centro-Oeste apontou, “a partir de 2006, uma melhora significativa na conversão alimentar para o sistema de oferta da ração líquida, sendo que neste ano [2009] acumula a diferença de 7,51% melhor em relação a ração seca. Esta melhora se deve a investimentos em treinamento, manutenção e uso de curvas de consumo de ração, com controle na freqüência e quantidade de ração por dia e fase de produção” (Orlando 2009).
O favorecimento da digestão da ração proporcionada pela dieta líquida é outro fator apontado por especialistas. “O efeito da atividade da água sobre as partículas dos ingredientes solubilizados, em especial o efeito da hidratação, gera condições mais adequadas ao processo de digestão do suíno, principalmente quando há tempo suficiente para que o processo da hidratação ocorra de forma efetiva. Neste aspecto, cada ingrediente utilizado nas dietas tem uma cinética de hidratação característica, dependendo ainda do diâmetro médio das partículas” (NOGUEIRA, 2001).
Cálculos de empresas de nutrição, integradoras e produtores apontaram economia de até 190 gramas de ração por quilo de “ganho de peso”, nas fases de recria e terminação em comparação à alimentação seca. No final do processo, um animal terminado consome 15,20kg a menos de ração para um ganho de 80 kg nesta fase, representando economia de R$ 7 a R$ 8, por cabeça. Em uma granja com capacidade para 4.000 animais em engorda, o produtor venderá o lote com R$ 28.000 de economia apenas em ração – o que representa um ganho de R$ 98.000/ano, insiste-se, somente com melhor aproveitamento do alimento fornecido.
3. Histórico
Antes de continuar o raciocínio de cálculos, vale relembrar como esta tecnologia reconhecidamente eficiente chegou ao Brasil, mesmo que discretamente. O suinocultor brasileiro foi apresentado aos primeiros sistemas computadorizados de dieta líquida em meados da década de 1990. Há apenas 15 anos, portanto. Em que pesem as invenções e adaptações rústicas e artesanais de alimentação líquida, presentes há décadas na suinocultura brasileira, discute-se no presente trabalho a tecnologia de ponta comandada por um computador central, capaz de determinar com precisão de apenas algumas dezenas de gramas a quantia a ser dosada em cada cocho, mesmo em uma complexa instalação para 10 mil cevados, por exemplo.
As primeiras notícias sobre um sistema completamente automatizado de alimentação líquida datam do início da década de 1970, na Alemanha. Dez anos depois, surgia a primeira máquina totalmente computadorizada, capaz de alimentar baseada em curvas de alimentação e iniciar automaticamente a mistura e fornecimento das rações, conforme cronogramas pré-estabelecidos.
Na década de 1990, suinocultores de diferentes regiões do Brasil iniciaram a importação de máquinas de última geração, especialmente de empresas alemãs. Pouco depois, integradoras vislumbraram expressivas economias de ração no modelo que também agiliza todo o processo de arraçoamento. A alimentação líquida ganhou força a partir dos anos 2000, quando uma grande integradora iniciou projeto na cidade de Rio Verde, em Goiás, apostando na utilização da alimentação líquida especialmente para a fase de terminação.
4. Dieta líquida: a busca pela redução de custos
Entretanto, a difusão da alimentação líquida no Brasil não se motivou apenas pela economia de ração, mas principalmente pela possibilidade de utilização de ingredientes alternativos, ou seja, co-produtos. Não se trata apenas de soro de leite ou restos de batata frita, fontes, aliás, comumente observadas em produções suinícolas na Europa. Restos em geral de empresas de laticínios e até de chocolate foram disponibilizados aos produtores, que ainda hoje tratam seus suínos com bombons e chocolate em pó, descartados pela indústria.
A criatividade independe da utilização de alimentação. Porém, a dieta líquida possibilidade, com tecnologia de ponta ou pura criatividade, misturar e fornecer ingredientes absolutamente econômicos nas diferentes fases da criação, especialmente na engorda. Se por um lado a automação de dieta seca permite apenas ingredientes sólidos, as máquinas de alimentação líquida possuem a capacidade de fornecer qualquer tipo de ração disponível. Prova de versatilidade da tecnologia.
O interior de São Paulo possui exemplos particulares de produções com utilização de co-produtos em sistemas próprios de alimentação líquida. Suinocultores daquele estado chegaram a observar, conforme dados coletados, aproximadamente 50% de economia nas fases de recria e terminação através de co-produtos. Contudo, observou-se em alguns casos a falsa impressão de economia e, no final, o custo do suíno vivo fechava acima do previsto.
A discrepância se dá especialmente pelo uso manual destes equipamentos, sem a devida precisão de dosagem. As atuais máquinas de alimentação líquida computadorizadas proporcionam tamanha exatidão, que a economia de ração consegue ser traduzida em maior margem de lucro no abate.
Observa-se atualmente o uso dos mais diferentes tipos de co-produtos, desde soro de leite, iogurte e achocolatado, até leite, levedura líquida ou suco de laranja. Em outros locais usa-se pão, biscoito e até torrada. Os sistemas, exemplos de criatividade e improviso, geralmente com operação totalmente manual, buscam aliar economia de ração e ganhos de peso diários – o que nem sempre se concretiza conforme o desejado, em função da pouca precisão de mistura e dosagem nos cochos.
5. O auxílio da Agricultura
Outro exemplo testado e aprovado na prática, tanto no Brasil quanto em outros países é a utilização da silagem com grão de milho úmido moído, como co-produto da alimentação líquida. Exemplo bem-sucedido do sistema que integra agricultura e suinocultura, o produtor Wienfried Matthias Leh, da cidade de Guarapuava, no interior do Paraná nutre seus suínos com alimentação líquida em três de suas granjas. Em duas delas, utiliza a silagem de grão úmido no processo de alimentação de seus suínos desde que adquiriu as máquinas, em meados dos anos 90.
Toda a safra de milho transforma-se em milho moído e corresponde a quase 60% da ração consumida pelos cerca de 65.000 terminados/ano, dos quais 45% são alimentados com dieta líquida. A economia em relação à utilização de ração concentrada é impulsionada pela utilização da tecnologia de alimentação líquida.
Cálculos próprios do produtor apontam economia de 190 gramas de ração para cada quilo de peso. A economia por animal chega a R$ 7, em comparação com a ração seca. Desta forma, os 30 mil animais terminados/ano em alimentação líquida economizam R$ 205 mil – ou um montante próximo a R$ 3 milhões, nos últimos 15 anos.
6. Funcionalidade
Mesmo uma década e meia após a introdução da dieta líquida na suinocultura brasileira, são relativamente poucos os que conhecem o funcionamento e as vantagens propiciadas por esta tecnologia. O funcionamento varia de acordo com as empresas fornecedoras do equipamento. Mas as tecnologias de ponta operam de maneiras semelhantes:
De forma didática, a dieta líquida é preparada a partir da mistura de ração oriunda dos silos, que é despejada em um tanque misturador, na quantidade pré-programada e baseada em dados alojados no computador, de acordo com o número de animais da fase (creche, recria, terminação) a ser alimentada. Durante esse processo, diferentes tipos de alimentos, sejam co-produtos ou ração concentrada, são conduzidos através de roscas transportadoras por tubos até o tanque.
Uma balança eletrônica sob o tanque acusa quando se atinge a quantidade desejada e em seguida adiciona-se água ou co-produtos líquidos. A proporção geralmente utilizada é de 2 a 3 litros para cada quilo de ração. Através de uma bomba, a ração é enviada, por tubulação, até os cochos. A dosagem se dá através da abertura de válvulas pneumáticas comandadas por computador, que liberam a quantidade pré-programada de ração em cada cocho, com precisão de dezenas de gramas.
7. Facilidades
A facilidade e praticidade da alimentação líquida residem na possibilidade de misturar os tipos e quantidades de ração de acordo com a necessidade ou disponibilidade. A tecnologia aliada a uma adequada assessoria nutricional garante retornos em pequeno e médio prazo (estima-se de dois a quatro anos).
Estudos que apontam melhoras na conversão alimentar em suínos que consomem alimentação líquida, em comparação com os que comem a seca, levam em consideração especialmente o melhor aproveitamento da ração. Com dosagens precisas, o sistema tende a ser econômico em termos de ingredientes sólidos, além de evitar desperdícios no processo como um todo, uma vez que não há perdas durante o transporte, nem na dosagem da ração.
Em relação ao manejo, a grande vantagem é o tempo reduzido de trato. Cerca de 1000 leitões podem ser tratados em aproximadamente 15 minutos. “Redução de pó nas instalações minimizando doenças respiratórias nos animais e em humanos que trabalham no local; menor desperdício de ração; redução [otimização] da mão de obra pela automatização; produção controlada; redução do impacto da alta no custo do grão, permitindo a utilização de co-produtos da indústria alimentícia como soro de leite (da fabricação de queijo), levedura de cervejaria, resíduos do processo de produção de alimentos infantis, sobras, cascas e água oriundas de plantas de processamento de batata”, são as principais vantagens proporcionadas pelos sistemas de alimentação líquida (Orlando, 2009).
Quanto à sanidade, especialistas apontam que a redução da poeira nos barracões, causada pela alimentação seca, proporcionam um ambiente mais agradável aos animais. Da mesma forma, a digestão é facilitada e a quantidade de ração fornecida aos animais é determinada de acordo com as exigências nutricionais de cada categoria animal.
8. Desvantagens
A principal desvantagem ainda é o custo inicial de implantação, tendo em vista que se trata de uma tecnologia de ponta. Não obstante vale ressaltar a contra-argumentação quanto à reposição do investimento em curto espaço de tempo.
Em termos de higienização ainda existe a preocupação com surgimento de microorganismo como fungos, decorrente da permanência de restos de alimentos úmidos na tubulação e nos tanques de mistura. Como produtor, Wienfried Matthias Leh observou e impressionou-se no início com o aparente surgimento de microorganismos. Contudo, transcorridos 15 anos desde a implantação, o suinocultor atesta que jamais teve problemas e/ou prejuízos decorrentes de eventuais aparecimentos destes microorganismos.
Dispostas a evitar dificuldades neste sentido, algumas das principais empresas fabricantes de máquinas de alimentação líquida computadorizada já dispõem de equipamentos capazes de eliminar quaisquer vestígios de alimento, seja através da utilização de luz ultravioleta (nos tanques) ou através da higienização de toda a tubulação com água limpa, no pós-trato. A precisão da dosagem e sensores também prometem evitar a permanência de restos indesejados de ração nos cochos.
9. Tecnologias Recentes
Ainda hoje as primeiras máquinas totalmente comandadas por computador, instaladas no país em meados dos anos 90, podem ser consideradas modernas, mesmo transcorridos cerca de 15 anos.
Nesta década e meia, os sistemas seguiram as tendências da informatização, atualizando-se em diversos seguimentos. Utilizando-se dos benefícios da era digital, há empresas oferecendo cada vez mais facilidades ao produtor.
Dentre elas está o acesso, via internet, ao equipamento. Isso possibilita que tanto o produtor quanto a assistência técnica possam “entrar” na máquina de alimentação líquida e configurar ou corrigir determinados parâmetros, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância. Palmtops, smartphones e agora o moderno iPad podem ser utilizados para acesso remoto do equipamento de alimentação líquida.
10. Conclusão
Em termos gerais, mesmo não havendo como apontar o início da utilização da alimentação líquida no Brasil (certamente iniciada por meio da famosa “lavagem”), a dieta líquida desponta como alternativa cada vez mais real e vantajosa para o médio e grande produtor.
Corroboram para tanto a facilidade na utilização de diversos tipos de co-produtos (sólidos e líquidos), a economia e redução de custos com ração e o retorno em curto e médio prazo de uma tecnologia feita para durar de 15 a 30 anos. Fato é que a alimentação líquida é realidade em mais da metade das granjas européias e está se enraizando no Brasil.
Da mesma forma, a alta tecnologia tende a se fazer cada vez mais presente na produção suinícola brasileira, por meio de equipamentos completamente automatizados e computadorizados, favorecendo justamente os exigentes suinocultores. O resultado pode ser o tão almejado equilíbrio entre despesas e retornos, em um ramo acostumado por oscilações.
11. Referências Bibliográficas
Koeleman, E. Pigs benefit from fermented liquid diets. Disponível em: <http://www.allaboutfeed.net/article-database/pigs-benefit-from-fermented-liquid-diets-id1461.html>. Acesso em: abril, 2010.
Nogueira, E.T.; Teixeira, A.O.; Pupa, J.M.R.; Lopes, D.C.. Manejo nutricional e alimentação nas fases de recria e terminação de suínos. Disponível em: <http://www.cnpsa.embrapa.br/abraves-sc/pdf/Memorias2001/6_eduardoNogueira.pdf>. Acesso em: maio, 2010.
Orlando, U.; Heck, A.; Kummer, A.B.H.P.; Barbosa, Gislaine, Nunes, J.C.. Definição de programas de nutrição e alimentação para recria e terminação de suínos com foco em melhoria na conversão alimentar. Anais Congresso Brasileiro de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), 14., 2009, Uberlândia, MG.
Yagüe, A.P.. Alimentación líquida aplicada en ganado porcino. Disponível em: <http://www.setna.es/documentacion/porcino/04alimentacionliquida.pdf>. Acesso em: julho, 2010.




