Simon Eskinazi, Nutriad Ltd, 1 Telford Court, Chester Gates, Chester, CH1 6LT Reino Unido.
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Introdução
O presente artigo tem o objetivo de oferecer um panorama da importância da palatabilidade da dieta e seu efeito na ingestão alimentar voluntária pelos suínos, em particular dos suínos recém-desmamados, e como sabores e adoçantes podem ser utilizados como ferramenta pelos nutricionistas para estimular a ingestão de ração em estágios fundamentais da vida.
A importância do sabor e da palatabilidade da dieta para suínos
Na natureza os animais precisam ser capazes de selecionar seus alimentos dentre uma grande variedade de possíveis opções para satisfazer suas necessidades diárias de nutrientes e, ao mesmo tempo, evitar substâncias potencialmente nocivas. A composição química de um alimento determina em grande parte seu sabor, que abrange gosto e aroma, e é a associação dessa característica particular à resposta metabólica posterior à digestão que ajuda o animal a fazer uma escolha consciente do que deverá comer. Pesquisas a respeito sobre os mecanismos de sabor e aroma nos mamíferos identificaram sensibilidade a cinco sabores primários, que, segundo se crê, são associados com o conteúdo nutricional de um alimento (Tabela 1); os sabores Doce, Salgado e Umami (termo japonês para Saboroso) tendem a ser associados a alimentos que contêm nutrientes para o bem estar; os sabores Azedo e Amargo indicam alimentos estragados ou a presença de toxinas. Pesquisas recentes identificaram genes que codificam receptores de sabor que reconhecem gordura, e agora muitos crêem que esse seja mais um sabor primário (Klasing and Humphrey, 2009).
Nos mamíferos, o número de receptores gustativos e olfativos na boca e nariz corresponde à sensibilidade ao sabor e ao aroma. Suínos são muito mais sensíveis ao sabor e aroma do que os humanos (Tabela 2) e esse traço valioso, ao mesmo tempo que oferece uma defesa de frente na proteção contra potenciais indisposições, pode atrapalhar na formulação de dietas balanceadas que sejam palatáveis e aceitáveis para o animal. Fatores anti-nutricionais presentes em muitos ingredientes das rações têm um sabor amargo: tanino (sorgo), alcaloide (tremoço), glucosinolato (farinha de canola) e saponinas (feijões, alfafa) têm potencial para reduzir a palatabilidade da dieta e diminuir a ingestão de ração quando estão presentes.
Estudos de comportamento alimentar demonstraram que ao serem oferecidas aos suínos duas alternativas de ração com variações na composição nutricional, eles são capazes de escolher a combinação que melhor corresponde às suas necessidades nutricionais. Notou-se, também, que se tiver opção, o suíno jovem prioriza a seleção de rações com relação à presença ou ausência de substância potencialmente nociva (tanino) ou anti-nutritiva/não-palatável (semente de algodão) e em seguida, com relação ao equilíbrio nutricional (taxa de aminoácido) ou valor proteico da dieta (Ferguson et al., 2002). Isso sugere que a presença de ingredientes não-palatáveis pode influenciar na ingestão voluntária de ração a despeito do equilíbrio nutricional que ela apresente.
Desafios da ingestão de ração durante o desmame
A ingestão alimentar adequada durante o período de desmame é crítica para originar um suíno saudável, capaz de explorar seu potencial genético para o crescimento. Porém, a ingestão alimentar ideal raramente é alcançada devido às influências de muitos fatores relativos à dieta, saúde e criação (Dong and Pluske 2007):
• Estado de saúde
• Acesso a creep feed antes do desmame
• Idade do desmame
• Misturas na ninhada
• Ambiente
• Nível e equilíbrio nutricional da dieta
• Palatabilidade dos ingredientes da ração (incluindo medicamentos e microingredientes)
• Forma da apresentação da dieta (pellet, farelo, úmida, seca)
• Suprimento e qualidade da água
• Condições de criação
Esses fatores também contribuem para a anorexia do desmame, um problema comum em muitas unidades comerciais. Testes demonstraram que durante o intervalo pós desmame até 35% dos suínos não consomem qualquer ração por até 24 horas após o desmame, com 10% deles consumindo sua primeira refeição após 40 horas depois do desmame (Bruininx et al., 2001). Entende-se, ainda, que o nível de ingestão alimentar imediatamente posterior ao desmame tem maior impacto na morfologia e saúde intestinal do que a composição da dieta (Barbara et al., 1999). Minimizar o intervalo entre o desmame e o consumo e encorajar um aumento estável da subsequente ingestão alimentar requerem uma dieta que seja balanceada em nutrientes e atraente e palatável para o suíno.
Estímulo à ingestão de rações iniciais
Leitões têm afinidade com os sabores doces e a adição de componentes adoçantes em rações iniciais comerciais é prática comum na indústria para melhorar a ingestão alimentar e facilitar a transição para alimentos secos durante o desmame. A sacarina de sódio é um composto com sabor doce bastante pronunciado, cerca de 450 vezes mais doce que o açúcar, que tem demonstrado estimular significativamente a ingestão de rações iniciais em níveis entre 50 e 250 ppm com um efeito menor em níveis mais altos (Aldinger et al., 1959). A razão pode ser que, além de seu sabor doce, a sacarina também apresenta um sabor residual metálico desagradável detectável em concentrações relativamente baixas, o que pode limitar seu uso como adoçante em rações iniciais. Para superar esse problema, muitos adoçantes nutricionais disponíveis comercialmente contêm outros compostos para melhorar a aceitação, tais como a Neohesperidina dihidrocalcona (NHDC) e a taumatina, conhecidas por agir em sinergia com a sacarina para reforçar o poder adoçante e mascarar o sabor metálico residual (Llorente-Díaz 2007).
Escolha do sabor
Os sabores também podem contribuir para estimular a ingestão alimentar, desde que sejam formulados com componentes atraentes aos suínos. Um sabor é uma combinação de compostos voláteis e não-voláteis que interagem com receptores olfativos e gustativos nos tecidos do nariz e da boca para estimular sensações de aroma e sabor. Há vários compostos disponíveis para a formulação de sabores, porém nem todos são agradáveis para os suínos. Em um estudo utilizando testes de dupla escolha para filtrar 96 compostos flavorizantes classificados em oito grupos (Amanteigado, Caseoso (queijo), Gorduroso, Frutado, Verde, Carnoso, Mofado, Doce) suínos apresentaram preferência significativa por apenas quatro compostos, um de cada dos grupos caseoso, frutado, carnoso e doce. Testes subsequentes de ingestão alimentar identificaram os sabores doce e caseoso como estimulantes da ingestão alimentar em relação a uma ração de controle sem sabor, sendo que o caseoso proporcionou melhora mais significativa no desempenho referente à ingestão alimentar e ganho de peso (McLaughlin et al., 1983).
Uma combinação de um adoçante e um sabor caseoso/amanteigado demonstrou melhorar significativamente a ingestão alimentar em relação a um adoçante de rações patenteado. Um teste com suínos desmamados aos 24 dias e alimentados com uma dieta contendo um adoçante ou combinação de adoçante e sabor (Swt/Flav) por 5 semanas constatou aumentos significativos na ingestão alimentar (fig 1.) e no ganho diário (fig 2.) para o tratamento (Swt/Flav). Suínos alimentados com a dieta contendo o tratamento Swt/Flav também tiveram uma distribuição de peso mais limitada (fig 3.) ao final do teste, e análises mais profundas dos dados baseadas no peso no início do tratamento revelaram que suínos leves (≈6,9kg) e de peso médio (≈8.0kg) tiveram taxas de crescimento significativamente melhores do que aqueles que eram mais pesados no início do tratamento (tabela 3.).
Influência na ingestão alimentar das matrizes durante a lactação e na longevidade das matrizes
A ingestão alimentar adequada durante a lactação é crítica para a produtividade e desempenho das matrizes, e é amplamente reconhecido que a manutenção das condições físicas das matrizes durante esse período é a chave para a longevidade. O melhoramento contínuo dos genótipos dos suínos para produzir carne magra rápida e eficientemente tem reduzido inadvertidamente o apetite das matrizes modernas. Além do baixo índice de apetite, muitos fatores externos também afetam a ingestão alimentar; a ingestão alimentar durante a gestação, disponibilidade e qualidade da água, temperatura ambiental, estado de saúde e qualidade da ração influenciarão na quantidade de ração que uma matriz consumirá durante a lactação. Ingestão alimentar insuficiente durante a lactação resultará em perda de peso à medida que a matriz utiliza suas reservas corporais para satisfazer as exigências de sua prole em crescimento. Matrizes magras no desmame tendem a ter maiores intervalos entre os cios e produzem ninhadas subsequentes menores, ou tornam-se incapazes de voltar a procriar, o que pode justificar sua retirada do rebanho.
A identificação de sabores que sejam atraentes para as matrizes pode oferecer um meio de aperfeiçoar a ingestão alimentar durante a lactação. Testes medindo a ingestão alimentar voluntária e o desempenho de matrizes durante a lactação, oferecendo uma dieta flavorizada com um produto derivado do chocolate ou produtos desidratados solúveis para suínos (DCP), determinaram que apenas os DCP melhoraram a ingestão alimentar (Johnston et al., 2003). Isso indica que as matrizes parecem preferir sabores condimentados aos doces, e que um tipo específico de sabor poderia ser utilizado como ferramenta para estimular a ingestão alimentar durante a lactação.
Aumentando a palatabilidade de rações para crescimento e para adultos
O crescimento da indústria de biocombustíveis aumentou a disponibilidade de farinha de canola e de DDGS fornecendo ao nutricionista de suínos uma fonte de ingredientes para rações a custos relativamente baixos, que, embora nutritivos, são limitados em nível de utilização devido à sua palatabilidade insatisfatória ou variável. Na transição da ração inicial para as dietas de crescimento, em que a curva de ingestão alimentar é limitada, a inclusão desses ingredientes em altos níveis pode desencorajar a ingestão alimentar. Pesquisas para investigar a substituição de farinha de soja por uma variedade de farinha de canola verificou que ingestão alimentar voluntária da dieta contendo farinha de canola é significativamente menor do que no caso da dieta à base de soja. O teste também investigou o efeito na ingestão alimentar de uma variedade de flavorizantes adicionados à dieta contendo canola e descobriu que a sacarose e o melado não tiveram efeito significativo. Dos quatro flavorizantes comerciais também testados, descobriu-se que dois aumentaram significativamente a ingestão alimentar em níveis iguais ao da dieta à base de soja, sendo que o sabor de maçã proporcionou o maior aumento (Lee and Hill 1983). A habilidade dos flavorizantes em proporcionar consistência ao sabor através do mascaramento dos ingredientes desagradáveis ao paladar em uma dieta oferece maior flexibilidade na formulação da ração, permitindo que as fórmulas sejam variáveis, aproveitando as mudanças de preços das matérias-primas sazonais e o uso mais eficiente, em termos de custos, dos subprodutos das indústrias de biocombustíveis e de alimentos humanos.
Conclusão
O sabor, que inclui gosto e aroma, é muito importante para os suínos; é a base do comportamento alimentar, fornecendo informações sobre o que comer ou não comer. Em sistemas intensivos de criação de gado, onde uma única ração completa é oferecida, o desempenho depende invariavelmente da manutenção da ingestão alimentar voluntária suficiente para explorar o potencial de crescimento de suínos jovens ou manter as condições físicas das matrizes. O uso de flavorizantes e adoçantes na ração pode estimular a ingestão e melhorar a palatabilidade das dietas e sua aceitação pelos suínos. É importante, porém, considerar a idade do suíno e a função desejada ao selecionar um sabor para uma dieta em particular. Evidências mostram que suínos em diferentes estágios da vida preferem diferentes sabores, e que nem todos os sabores, apesar de atraentes para os seres humanos, são atraentes para os suínos, aparentemente mais exigentes.











