Mariana Zanatta, Julia Rossignol, Gustavo Savoldi e Djane Dallanora
marianazz115@hotmail.com
A seleção por animais mais eficientes do ponto de vista reprodutivo, através do melhoramento genético, tornou as fêmeas suínas hiperprolíficas. Na edição do prêmio Melhores da Suinocultura (2010), houve uma média de 14,4 nascidos totais e 12,4 desmamados, o que resulta em 30,85 leitões desmamados/fêmea/ano nas 10 melhores granjas do país.
Apesar desse índice ainda ser o principal indicador atual de desempenho das unidades produtoras de leitões, atualmente, o índice kg de leitões desmamados/porca/ ano tem ganhado mais importância como indicador de produtividade. Assim, não somente a quantidade de leitões desmamados é levada em consideração, mas também a qualidade destes leitões mensurada a partir do seu peso ao desmame (Bierhals et al., 2010).
Nas condições atuais, a correlação entre o número de nascidos e o peso ao nascer é inversamente proporcional. Trabalhos indicam que o peso médio da leitegada é reduzido entre 25 e 35 g para cada leitão nascido total a mais e o percentual de nascidos abaixo de 1 kg de peso vivo aumentou de 7 para 23% (Quiniou et al., 2002; Devillers et al., 2007), além de aumentar a variabilidade de peso dentro da leitegada. Nesse contexto, o manejo de maternidade é a principal ferramenta para redução das possíveis perdas de maternidade, iniciando imediatamente após o nascimento. Um dos procedimentos mais importantes nesse sentido é a uniformização dos leitões.
Devido às leitegadas muito numerosas, o número de tetas funcionais das matrizes muitas vezes não é suficiente e, adicionalmente, com importantes diferenças entre o peso dos leitões, tornar o peso homogêneo na leitegada é fundamental. Segundo Bierhals et al (2010), a uniformização de leitegadas por tamanho pode proporcionar um melhor desempenho aos leitões pequenos ao serem separados dos leitões maiores.
A uniformização é o método utilizado para diminuir a ocorrência de brigas ou igualar as disputas e melhorar o desempenho dos leitões garantindo assim com que todos tenham acesso à ingestão de colostro e leite. Segundo Marcatti Neto (1986), houve uma redução de 13,4% para 6,7% de mortalidade, em leitegadas não uniformizadas e uniformizadas no período correto, mostrando o acentuado efeito positivo sobre o desempenho da maternidade.
O manejo da uniformização baseia-se na transferência de leitões entre leitegadas, estabelecendo como padrão o tamanho e o peso. A recomendação é que essa prática seja realizada entre 6 a 24 horas, assegurando que o leitão mame o máximo colostro nesse período.
Recentemente, Heim et al. (2009) observou que a absorção de IgG (imunidade humoral) até 24 h após o nascimento ocorreu de forma satisfatória, independente de ser proveniente da mãe biológica ou adotiva. Por outro lado, Pieters et al. (2008) realizaram um trabalho muito importante, esclarecendo que a imunidade celular (linfócitos) presente no colostro somente é absorvida quando proveniente da mãe biológica e sugeriu que as transferências não devem acontecer antes das 6 horas após o nascimento.
Outra observação que ressalta a importância da ingestão de colostro e da uniformização entre as 6 e 24 horas após o nascimento são os fatos de que a concentração de imunoglobulinas cai gradativamente e devido ao “fechamento intestinal” para absorção de macromoléculas intactas nesse período.
A transferência entre leitegadas pode promover a transferência de agentes de uma baia para outra, além de levar leitões que podem não estar protegidos para outras leitegadas. Assim, a transferência deve ser feita enquanto as mães adotivas ainda estejam produzindo colostro.
De forma prática, o manejo de uniformização deve ser realizado observando o horário em relação ao nascimento (6 a 24h) e o limite máximo de 20% de transferências (Madec & Waddilove, 2002) para otimizar os aspectos de peso, número de leitões, absorção de imunidade passiva celular e humoral e menor transferência de patógenos possível.
Esse manejo quando realizado após o período ideal (6 – 24 horas) ocorre diminuição do ganho de peso, aumento das brigas, maior mortalidade pré-desmame, sendo que pesquisas recentes demonstraram que essa prática pode reduzir essas perdas em até 40% quando comparada a grupos não uniformizados (English e Bampton, 1982). Além das perdas citadas, a uniformização tardia acarreta em distúrbios comportamentais da porca em relação aos leitões adotados, já que ela os reconhece através do olfato, podendo rejeitá-los ou matá-los.
Quanto ao número de leitões a serem deixados em cada leitegada, percebe-se que não há benefícios em estabelecer um protocolo fixo, ou seja, definir de forma estática um número de leitões/leitegada. A decisão do tamanho da leitegada a ser formada no momento da uniformização envolve diversas variáveis, tais como: número de tetos viáveis, número de leitões nascidos vivos/parto no dia, disponibilidade de fêmeas para se tornarem mães-de-leite e número de partos no dia (Bierhals et al., 2010).
Outro aspecto importante é a uniformização em primíparas. Apesar de dados controversos e muito espaço para discussões ainda, parece razoável formar leitegadas com leitões de menor peso ao nascimento (com menor mérito genético para ganho de peso), minimizando assim as perdas corporais nessa classe de fêmeas, além de garantir um desempenho próximo ao máximo para os leitões.
As intervenções durante a lactação devem ser limitadas à retirada de leitões dessas leitegadas e formação de novas leitegadas com mães-de-leite, compostas apenas por leitões que tiveram baixo desenvolvimento nas suas leitegadas (refugaram). Podem ser adotados procedimentos especiais com uso de antimicrobianos e suplementos energéticos nesses leitões com desempenho prejudicado, além de utilizar uma fêmea com boa produção de leite e número suficiente de tetas viáveis. É contra-indicado que sejam feitas trocas de leitões de forma indiscriminada, apenas trocando leitões entre leitegadas, sem oferecer condições especiais de tratamento a esses leitões.
Straw et al. (1998) verificaram que transferências realizadas ao longo da lactação reduziram a variação no peso ao desmame em 41%, mas reduziram também a taxa de crescimento dos leitões em 20%. Por isso, as transferências devem se limitar ao mínimo necessário e fatores que eventualmente estejam promovendo o aumento da refugagem e consequentemente aumento da necessidade desse manejo.
Sempre que ocorrer a introdução de leitões nas leitegadas, invariavelmente ocorrerão também brigas, as quais promovem lacerações na pele e perdas de mamadas. A duração média dessa perda de mamadas é de 24 horas após as trocas e vem daí a importância de não mudar leitões indiscriminadamente durante a lactação.
Segundo Bierhals et al (2010), a uniformização de leitegadas precisa deixar de ser uma simples “mistura” de leitões, tornando-se uma ferramenta de auxílio à sanidade, reprodução, produtividade e lucratividade da atividade. Realizar esse manejo de forma imprudente tem consequências na maternidade em curto prazo e sobre o desempenho subsequente do leitão nas outras fases já que pode interferir no peso e status imunológico.








