Manejo

Publicado em 08.09.11 às 16:09 hs

Política de descarte de matrizes suínas: Novos rumos e desafios às inovações incorporadas na produção

Anamaria Jung Vargas1; Giseli Heim2

 

1 Uniquimica - Diadema, SP. vargas_aj@yahoo.com.br

2 Setor de Suínos – Faculdade de Veterinária – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Porto Alegre, RS. www.ufrgs.br/setorsuinos

 

1 INTRODUÇÃO

Na suinocultura tecnificada, as taxas anuais de reposição de matrizes suínas, que visam à substituição das matrizes que foram descartadas ou que morreram, estão entre 35 e 50% (D’ALLAIRE & DROLET, 1999; STALDER et al., 2003; BORTOLOZZO & WENTZ, 2006; ENGBLOM et al., 2007). Quando é praticada uma taxa de 40% de reposição, 35-36% são representados por descarte e 4-5% por mortes (MÜIRHEAD, 1976). A remoção de uma fêmea só é involuntária quando ela morre e em qualquer outra situação, envolve uma decisão voluntária, baseada em diferentes critérios adotados conforme a política da granja, que chamamos de descarte. Dessa maneira, a taxa de reposição é diretamente influenciada pela taxa de mortalidade de matrizes e pela política de descarte adotada pela granja. Existe uma grande variação nas taxas de descarte mesmo entre sistemas que possuem instalações, genética e nutrição similares. Diferentes práticas de manejo, condições ambientais e critérios adotados influenciam a mortalidade e o descarte das fêmeas, salientando a importância da definição de uma adequada política de reposição de matrizes (BORTOLOZZO & WENTZ, 2006).

Granjas com elevadas taxas de reposição apresentam decréscimo na eficiência reprodutiva, já que uma grande parte do plantel de matrizes será composto por fêmeas jovens, com reduzido número de partos (LUCIA Jr. et al., 1999; RODRIGUEZ-ZAS et al., 2003; TARRÉS et al., 2006). Um maior percentual de fêmeas jovens contribui para a redução da longevidade reprodutiva média do plantel, pois esta categoria contribui para o aumento do percentual de descartes, por serem predispostas às falhas reprodutivas (STEIN et al., 1990; LUCIA Jr. et al., 2000a; LUCIA Jr. et al., 2000b; ENGBLOM et al., 2007;). Além disso, como a prolificidade atinge níveis mais elevados apenas a partir do terceiro parto (DIAL et al., 1992), estas fêmeas jovens produzem leitegadas menores (CLARK et al., 1988). Em conseqüência desses fatores, as altas taxas de descarte de matrizes elevam os custos com reposição do plantel, levando à inconsistência nas metas semanais estabelecidas para coberturas, partos, desmames e vendas de animais (DIAL et al., 1994), aumentam os custos por leitão desmamado e reduzem a lucratividade (FAUST et al., 1993; SEHESTED, 1996), resultando em impacto econômico negativo.

Assim, a manutenção do plantel com uma adequada distribuição de ordem de parto das fêmeas é fundamental para que haja uma boa produtividade e conseqüente rentabilidade das unidades produtivas. Para isso, é importante estar atento às taxas de remoção de matrizes para que se possam monitorar possíveis oscilações e identificar se os índices obtidos estão adequados.

 

2 DISTRIBUIÇÃO DO PLANTEL DE MATRIZES DE ACORDO COM A ORDEM DE PARTO

Como foi descrita anteriormente, a distribuição da ordem de parto (OP) das fêmeas no plantel influencia a produtividade e, conseqüentemente, a lucratividade da granja.

A variabilidade no fluxo intra-rebanho de fêmeas em reprodução é influenciada pelo manejo reprodutivo, como por exemplo, a taxa de reposição, a OP do rebanho, e o tamanho do “pool” de leitoas de reposição (SILVEIRA, 2007). Por outro lado, ao longo dos anos, a distribuição de fêmeas por OP também pode variar devido, principalmente, as novas tecnologias que são agregadas aos sistemas de produção e ao momento econômico em que vive a suinocultura (BORTOLOZZO & WENTZ, 2006). Na tabela 1 são apresentados os percentuais recomendados na distribuição das matrizes de acordo com a OP em uma granja estabilizada.

 

Com as taxas de reposição aplicadas atualmente (35-50%), em cada grupo de cobertura são incorporadas, em média, 17-21% de leitoas vindas do “pool” de leitoas. Como observado, as leitoas representam um percentual importante no grupo de matrizes, e sua introdução deve respeitar sempre os limites sugeridos para esta categoria, baseados na política de descarte adotada pela granja (BORTOLOZZO & WENTZ, 2006).

O inadequado manejo das leitoas pode resultar na diminuição da eficiência produtiva e da longevidade da futura matriz (KIRKWOOD & THACKER, 1992). A alta taxa de remoção de leitoas possui impacto negativo sobre a eficiência reprodutiva, pois se estas fêmeas foram removidas do plantel sem jamais terem parido, todos os dias em que elas permaneceram no plantel deverão ser considerados dias não produtivos (DNP) (LUCIA Jr. et al., 1999; LUCIA Jr., 2004). Koketsu (2007) recomenda uma taxa de abate menor que 20% nas OP 0 e 1 para obter uma alta longevidade e alta eficiência.

Longevidade é o período transcorrido do nascimento à morte de um animal. Em granjas comerciais, este período corresponde do ingresso do animal no plantel reprodutivo (ou até mesmo, momento do primeiro registro da vida reprodutiva) até a remoção, por morte ou descarte. Alguns parâmetros como média de parição das fêmeas descartadas (LUCIA Jr. et al., 1999), ordem de parto (OP), taxa de mortalidade das fêmeas, desmamados/fêmea descartada podem ser usados para mensurar a longevidade da fêmea suína (STEIN et al., 1990b).

A distribuição das remoções de fêmeas em distintas OPs é um fator crítico para a compreensão da influência das taxas de descarte sobre o desempenho da granja (LUCIA Jr., 2007). Segundo D'Allaire e Drolet (1999), o intervalo de OP nas remoções é de 2 a 5, mas, em geral, fêmeas de OP 3 e 4 são mais descartadas (em torno de 60% das remoções) na maioria das granjas (ZIVKOVIC et al., 1986; DJIKHUIZEN et al., 1989; STEIN et al., 1990a; LUCIA Jr. et al., 1999, KOKETSU, 2007), eventualmente a OP ultrapassa 4 (KANGASNIEMI, 1996; KOKETSU et al., 1999; ENGBLOM et al., 2007). A remoção de leitoas e OP1, combinadas, representam em torno de 30% do total.

A taxa de descarte pode influenciar a distribuição das idades das fêmeas do plantel. Uma taxa de descarte baixa está associada com alta proporção de fêmeas velhas no plantel, que tem maior probabilidade de apresentarem patologias (como infecções urinárias) e podem estar relacionadas a menor eficiência reprodutiva. Por outro lado, uma taxa de descarte alta geralmente está associada com alta proporção de fêmeas jovens no plantel, que são menos produtivas e responsáveis pelo aumento no número de dia não produtivos (DIJKHUIZEN, et al, 1989). Fêmeas jovens também têm maior probabilidade de apresentarem falhas reprodutivas e problemas locomotores (D'ALLAIRE & DROLET, 1999). Assim, uma alta taxa de remoção requer muitos animais para reposição, aumentando os custos com a aquisição desses animais e representando um risco potencial de introdução de doenças.

Uma reposição acima do recomendado poderá implicar em menor desempenho reprodutivo pela presença de um plantel jovem em maior percentual (até OP 3). Na seqüência, quando este plantel apresentar OP ≥ 4, a produtividade poderá ser melhor, mas a necessidade de descarte destas fêmeas que atingem OPs maiores aumenta e, conseqüentemente, forma-se um círculo vicioso de desorganização no programa de descartes e reposição (TABELA 2). A subseqüente reorganização desse plantel implica em cuidados especiais a serem tomados na política de descarte e reposição (BORTOLOZZO & WENTZ, 2006).

 

3 CAUSAS DE DESCARTE

Atualmente, a manutenção de uma matriz em um rebanho depende de uma combinação de fatores, como características morfológicas e potencial de produção (TARRÉS et al., 2006). Estudos demonstraram que as principais causas de descarte estão relacionadas às falhas reprodutivas, correspondendo a 23-41% dos descartes (JONES, 1969; SEHESTED & SCHJERVE, 1996; MÜIRHEAD & ALEXANDER, 1997; BOYLE et al., 1998; D'ALLAIRE & DROLET, 1999; LÓPEZ-SERRANO et al., 2000), seguidas por razões como idade avançada, performance inadequada, problemas locomotores (ao redor de 11-14%), morte (4-7%) e problemas mamários (DJIKHUIZEN et al., 1989; STEIN et al., 1990a; CARVALHO, 1990; D’ALLAIRE & DROLET, 1999; LUCIA Jr. et al., 2000b; FRANCHESCHINI, 2001; TUMMARUK et al., 2001; HUGHES & SMITS 2002; ENGBLOM et al., 2007.

 

3.1 Falhas reprodutivas

Dagorn e Aumaitre (1979), D'Allaire et al. (1987), Dijkhuizen et al. (1989), Stein et al. (1990a) e Lucia Jr. (1997) afirmam que fêmeas jovens são mais sujeitas a serem descartadas por falhas reprodutivas que fêmeas velhas. Em um estudo realizado por Lucia Jr. et al. (2000) foram avaliados 28 rebanhos com dados de 1986-1990. Este estudo abrangeu apenas granjas com máximo de 10% de flutuação no tamanho do rebanho, sendo utilizado somente granjas estabilizadas. Foram avaliadas as causas de remoção de 7.973 fêmeas em todas as OPs. A média de parição das fêmeas removidas foi de 3,3 e o tempo médio de permanência no rebanho foi de 582,7 dias. A principal causa de remoção foram as falhas reprodutivas, seguida do tamanho da leitegada. Esse mesmo estudo avaliou as OPs removidas e obteve-se a categoria das leitoas como a mais removida (19%) (TABELA 3).

Fêmeas descartadas por falhas reprodutivas acumularam o menor número de partos (2), desperdiçaram maior porcentagem da vida útil em períodos não produtivos (42%) e estiveram entre as que produziram menor número de leitões desmamados durante a vida útil e por ano de vida. Entre as fêmeas descartadas, as que acumularam o maior número de partos (7,4), maior número de leitões desmamados por ano (21,3) e de leitões desmamados durante a vida útil (68) foram aquelas descartadas devido à idade avançada (LUCIA Jr. et al., 2000c).

De acordo com o estudo de Moreira et al. (2006), avaliando 330 matrizes, de 10 granjas localizadas na Região Centro-Oeste do Brasil, as principais causas de descarte observadas foram baixa produtividade (41,52%), idade avançada (fêmeas com mais de seis partos, 11,21%) e baixo escore corporal visual (7,88%), ou seja, fêmeas magras ou muito magras, com ossos das costelas proeminentes e pouca profundidade abdominal. Na tabela 4 está a freqüência encontrada das causas de descarte das matrizes suínas.

No Quadro 1 diversos autores demonstram que, ao redor de metade dos descartes (47%) são ocasionados por falhas reprodutivas e 16% devido à leitegada pequena. Assim, um total de 63% dos descartes é resultado de uma insuficiência ou incapacidade reprodutiva.

 

Grandes unidades de produção de suínos, intensificação e complexidade tecnológica têm produzido novos tipos de problemas reprodutivos, bem como exacerbado formas antigas (MOREIRA et al., 2003). Dentre as falhas reprodutivas destacam-se: anestro, retorno ao estro, fêmeas vazias após a cobertura e abortamentos. O anestro em leitoas contribui para o aumento de DNP antes do primeiro serviço, com posterior descarte, mas o anestro em porcas apresenta menor impacto sobre os descartes, ainda que seja importante como razão de remoção de fêmeas primíparas após o desmame (LUCIA Jr. 2007).

O diagnóstico ineficiente de estro, utilização de machos jovens, inseminação em uma idade precoce, nutrição inapropriada, agentes tóxicos ou infecciosos, práticas inadequadas de manejo, e efeitos do meio-ambiente podem ser fatores que elevam os níveis de falhas reprodutivas em fêmeas jovens, condicionando seu descarte precoce (D’ALLAIRE & DROLET, 2006). Primíparas com intervalo desmame-estro (IDE) ≥ 6 dias apresentam maior risco de descarte do que aquelas com IDE de no máximo 4 dias (TANTASUPARUK et al., 2001).

Os descartes por falhas reprodutivas ocorrem mais em fêmeas de menor OP, contribuindo para o descarte de fêmeas entre 0-2 partos (STEIN et al., 1990a; LUCIA Jr. et al., 1999). Fêmeas descartadas por falhas reprodutivas apresentam maior número de DNP e menor produção de leitões desmamados durante a vida reprodutiva, tanto anual, quanto cumulativa, o que se reflete também em menor eficiência financeira (LUCIA Jr. et al., 2000a).

 

3.1.1 Como identificar as falhas reprodutivas:

Como mencionado anteriormente, a meta recomendada de descarte é de 40% (35-36% - descarte e 3-5% - mortalidade), mas muitas fêmeas são descartadas por problemas irreais, muitas vezes resultantes de falhas humanas durante sua determinação, levando à diminuição da produtividade, elevação da taxa de reposição, dos dias não produtivos e custos de produção (DIEHL et al. 2003).

A avaliação e visualização dos ovários de matrizes suínas são um ótimo método para auxiliar a decisões de descarte (HEINONEN et al., 1998; KNOX, 2005), uma vez que nem sempre é possível observar claramente uma menor eficiência produtiva em granjas que estão apresentando problemas nas decisões de descarte (LUCIA Jr. et al., 2000). O acompanhamento ao abate é um método de avaliação útil que pode trazer informações importantes para comparar as razões atribuídas para o descarte de matrizes suínas e o real status fisiológico do trato reprodutivo (LUCIA Jr. et al., 2000). Os resultados devem ser interpretados em conjunto com o histórico da fêmea, devendo-se dar atenção especial à razão do descarte, sendo necessário correlacionar o estágio do ciclo estral encontrado no abate com o histórico da granja (MacLachan e Foley, 1986). A partir dessa avaliação é possível organizar o programa de descarte, evitando-se remoções desnecessárias e, com isso, aproveitar melhor a longevidade das fêmeas, seus melhores potenciais produtivos, aumentando a eficiência produtiva do plantel como um todo e diminuindo custos de produção (DIEHL et al., 2004).

Moreira et al. (2006) avaliaram a relação entre a condição funcional encontrada nos ovários de matrizes suínas com suas respectivas causas de descarte. Analisaram macroscopicamente 330 pares de ovários de fêmeas mestiças Large Withe x Landrace descartadas por inadequada performance reprodutiva. As principais causas de descarte foram baixa produtividade, idade avançada e baixo escore corporal visual (ECV). Conforme observado na tabela 8, 46,36% dos 300 pares de ovários estavam na fase folicular do ciclo estral, 44,24% na fase lútea, 7,58% apresentavam cistos ovarianos e 1,82% em anestro. Nesse estudo, o que chama a atenção é que 90,6% das matrizes descartadas estavam em atividade cíclica normal. Einarsson et al. (1982) e Dalin et al. (1997) também verificaram que a maioria das fêmeas descartadas apresentava atividade ovariana, porém em percentuais mais baixos, ou seja, 38,0 e 69,0%, respectivamente. Moreira et al. (2006) observaram que as causas de descarte não mostraram qualquer relação com a condição funcional dos ovários das matrizes suínas em estudo.

3.2 Tamanho da leitegada

O tamanho da leitegada é a categoria com segunda maior contribuição para o total de descartes (Tabela 3). Para o descarte de fêmeas por motivo de reduzido tamanho da leitegada pode ser considerado o número de leitões nascidos totais, desmamados e mortalidade pré-desmame, cujos índices refletem fatores sanitários ou relacionados ao manejo e não são necessariamente ligados ao desempenho da matriz (LUCIA Jr., 2007). Friendship et al. (1996), Brandt et al. (1999), Yazdi et al. (2000) e Tarrés et al. (2006) também observaram uma maior chance de descarte das fêmeas que apresentaram diminuição do tamanho da leitegada.

A OP da remoção das fêmeas descartadas pelo tamanho da leitegada é mais elevada do que a observada naquelas descartadas por falhas reprodutivas (D’ALLAIRE & DROLET, 1999; LUCIA Jr. et al., 2000b; ENGBLOM et al., 2007). Nestes estudos, leitoas não foram consideradas. Outra constatação em descartes por tamanho da leitegada é que são mais freqüentes a partir da OP3, quando o tamanho da leitegada deveria atingir seu nível máximo.

Apesar da baixa repetibilidade, fêmeas com produção de leitegadas pequenas no primeiro parto podem repetir esta característica nos partos posteriores (CLARK et al., 1988; LUCIA Jr. et al., 2001, AMARAL FILHA et al., 2005), o que justificaria seu descarte mais precoce. Amaral Filha et al. (2005), observaram queda de um leitão na média total de nascidos no segundo parto (10,7 ± 3,1; P<0,05), sendo que no terceiro parto (11,6 ± 3,3 leitões; P<0,05), a média do total de nascidos voltou a aumentar. E mesmo com a redução no número de nascidos no segundo parto, fêmeas com 11 ou mais leitões no primeiro parto tendem a permanecer com boa produtividade média nos partos subseqüentes.

 

3.3 Idade avançada

Outro motivo de descarte é o número de partos das fêmeas, ou seja, fêmeas com idade avançada, que não apresentaram problemas sanitários, nem desvios do desempenho ao longo da vida reprodutiva. As fêmeas descartadas por idade gastam o menor número de dias no plantel por leitão desmamado produzido, apresentando OP na remoção elevada e maior produção acumulada de leitões durante a vida reprodutiva, refletindo em alta produção anual. No entanto, estas fêmeas com alta eficiência ao longo da vida reprodutiva podem ser consideradas exceções, pois representam uma pequena proporção do total de fêmeas (LUCIA Jr., 2007).

Com o aumento do número de partos por ano, o risco de descarte por falhas reprodutivas, dentro de cada intervalo entre partos, pode ser maior (STEIN et al., 1990a). O aumento no número de partos e de lactações por ano aumenta a exigência metabólica da fêmea, o que pode ser associado com perda excessiva de peso ou condição corporal desfavorável, caso o consumo de ração da lactação não esteja ajustado a esta exigência (KOKETSU et al., 1996).

Em alguns estudos, uma maior taxa de descarte foi observada entre fêmeas com alimentação restrita (WALKER, 1983; WHITTEMORE et al., 1984; YOUNG et al., 1990) e, entre as razões de descarte que foram relatadas, a principal foi problemas reprodutivos como retorno ao estro e abortos (YOUNG et al., 1990). Segundo Gill e Taylor, 1999, a restrição protéica aumentou a proporção de descarte após o primeiro parto por falhas reprodutivas. Em contraste, alguns estudos têm sugerido que leitoas com excessivo ganho de peso são mais susceptíveis de serem descartadas prematuramente por problemas de claudicação e, portanto, a vida produtiva útil pode ser reduzida (JONGBLOED et al., 1984; GATEL et al., 1987; SORENSON et al., 1993; GILL & TAYLOR, 1999).

 

3.4 Problemas locomotores e condição corporal

Problemas locomotores têm sido citados como uma razão comum de descarte (DIAL & KOKETSU, 1996; FRIENDSHIP et al., 1996). Além de provocar descartes prematuros, os problemas locomotores constituem uma preocupação em relação ao bem-estar dos animais, uma vez que estão relacionados a dor que as fêmeas devem suportar até que sejam abatidas (JORGENSEN & SORENSEN, 1998). Segundo Zivkovic et al. (1986), cerca de 55,2% dos descartes ocorrem nos primeiros três partos, e as principais causas são reprodutiva e problemas locomotores, freqüentemente associados a fêmeas pesadas. Amaral Filha et al (2008) agruparam as leitoas de acordo com o peso à primeira inseminação (130-150Kg, 151-170Kg e 171-200Kg) e observaram que leitoas com elevado peso (170-200kg) tiveram maior taxa de descarte devido a problemas locomotivos, quando comparadas a leitoas de menor peso (Tabela 5). Já Kummer et al. (2006) observaram que a cobertura de leitoas com taxa de crescimento rápido e, conseqüentemente, maior peso não influenciou o desempenho reprodutivo e a taxa de descarte nos primeiros três partos.

Segundo Hughes e Smits (2002), a condição corporal de fêmeas suínas que morreram ou foram descartadas foi significativamente menor que a do rebanho como um todo. No entanto, deve salientar-se que a verdadeira diferença entre essas fêmeas que permanecem no rebanho e as descartadas ou que morreram foi de, aproximadamente, 14 kg de massa corporal e um milímetro de espessura de toucinho (TABELA 6 e 7).

 

 

 

 

4 POLÍTICA DE DESCARTES X CUSTOS DE PRODUÇÃO

Existe um componente de custo fixo relacionado à reposição de uma fêmea do plantel de reprodução, independente se ela foi criada na própria granja ou adquirida de um fornecedor externo. Esse valor relacionado à reposição deve ser somado a outros componentes de custo (alimentação, instalações, mão de obra) que aumentam diariamente em função da permanência da fêmea no plantel (DJIKUIZEN et al, 1989; HUIRNE et al, 1991). Ao se adquirir uma nova matriz, o preço pago é maior que o obtido com a venda da matriz descartada, pois, neste valor está embutido o valor genético da nova matriz. Se a matriz adquirida não produzir leitões que possam gerar um retorno financeiro, o valor pago no momento do descarte dessa matriz teria que compensar os custos da aquisição dela, juntamente com os gastos com frete, alimentação no período em que esteve alojada, vacinas e mão-de-obra, para não afetar negativamente os rendimentos da granja (DIEHL et al., 2004).

No programa de descartes é importante considerar o número médio de parições, já que o capital investido inicialmente para a formação de uma matriz faz a primeira leitegada ter um custo superior a segunda e esta, a terceira e assim sucessivamente. O ideal, sob este aspecto seria a manutenção de fêmeas produtivas no plantel, evitando seu descarte precoce. Esse princípio, contudo, não pode ser observado em granjas multiplicadoras genéticas onde o objetivo de produção é o ganho genético e quanto menor o intervalo entre gerações, menor o tempo gasto para seleção de caracteres desejados (CARVALHO, 2000).

O custo diário de manutenção tende a ser maior em porcas de menor parição em função do maior acúmulo de DNP, uma vez que se esse dia for ‘não produtivo’, o custo por matriz ficaria em torno de US$ 1,43 (POLSON et al, 1990). Usando um modelo de reposição de matrizes, Dijkhuizen et al (1989), avaliou a perda por remoção prematura em aproximadamente US$ 62,00 por fêmea descartada, com uma taxa de reposição anual de 50% que representa o equivalente a 16% dos rendimentos da granja de suínos. Usando o mesmo modelo o autor realizou uma simulação aumentando o número médio de parições no momento do descarte de 2,8 partos para 3,8 partos e de 3,8 para 4,8. Com o aumento do número de partos ao descarte, a renda por porca/ano melhorou para US$ 25-35 e US$ 20-25, respectivamente. Entretanto, em trabalho semelhante com o aumento para 5 partos ao descarte, não foi encontrado nenhum efeito benéfico (SEHESTED, 1996).

De acordo com Lucia Jr. et al. (2000b) e Stalder et al. (2003), pelo menos, três leitegadas são necessárias antes do descarte para que a fêmea seja rentável. Outros estudos estimaram cinco partos (SCHOLMAN & DIJKHUIZEN, 1989). Faust et al. (1993), em um estudo de simulação, demonstraram que sistemas de produção com baixas taxas de descarte são os mais rentáveis.

 

5 CRITÉRIOS PARA DESCARTE

O primeiro passo para avaliar o programa de descartes é a determinação da taxa anual de reposição. Circunstâncias incomuns, como uma mudança no inventário ou nos critérios de descartes, podem alterar temporariamente a taxa de reposição. O cálculo do número médio de parições no plantel é muito usado, mas o número médio de parições das fêmeas descartadas é mais informativo, pois permite uma avaliação mais detalhada (D'ALLAIRE & DROLET, 1999).

Há um aumento no tamanho da leitegada do primeiro para o quarto ou quinto parto, decrescendo a partir deste. Então, para maximizar o tamanho da leitegada e, conseqüentemente, o número de leitegadas/fêmea/ano é importante o estabelecimento de critérios para remoção de matrizes que levem estes dados em consideração, buscando aumentar a longevidade das matrizes do plantel de reposição. Dados obtidos na América do Norte (LUCIA Jr. et al, 1997) indicam que o número máximo de partos que uma fêmea poderia ter para ser mantida no plantel seria de no máximo seis partos, enquanto dados obtidos na Europa (HUIRNE et al, 1991) indicam que a manutenção de uma fêmea por até nove partos ainda seria economicamente viável. Lanzer e Protas (1985) recomendam uma estratégia de descarte de matrizes baseada na ordem de parto e no tamanho da leitegada. Segundo os autores, seguindo esta estratégia, seria possível obter uma elevação em 11% no rendimento reprodutivo em relação a uma estratégia baseada somente no número de partos.

No momento da decisão do descarte deve-se levar em conta outros fatores importantes, como o preço dos animais de reposição. Em casos de preços elevados e crise no setor, o produtor tende a manter no plantel por mais tempo fêmeas com desempenho regular até que a situação esteja mais favorável. Além disso, é importante no momento de tomar a decisão do descarte considerar os dados de produtividade da fêmea. Quanto ao momento de realizar o descarte o produtor deve procurar minimizar os dias não produtivos, por exemplo, ao tomar a decisão de descartar uma fêmea por produtividade, deve-se fazê-la logo após o desmame (DIEHL et al., 2004).

A diminuição da taxa de descarte em categorias de menor OP pode ser conseguida através do desenvolvimento de leitoas com peso corporal adequado, média espessura de toucinho e bons aprumos (ROZEBOOM et al., 1996). O manejo nutricional durante as fases de desenvolvimento e gestação (ROZEBOOM et al., 1996; YOUNG et al., 2004) são críticos para diminuir as taxas de abate. Além disso, o manejo nutricional na lactação deve satisfazer as exigências nutricionais desta fase (EISSEN et al., 2003), pois esse período é considerado crítico, sendo um dos momentos em que as falhas de manejo (nutricional) ocorrem com maior freqüência, havendo interferência direta na posterior produtividade da fêmea.

 

6 FALHA NO PROTOCOLO DE DESCARTE

Erros na determinação real da causa de descarte são bastante comuns, levando muitas vezes, ao descarte de fêmeas por motivos pelos quais na realidade não estão acometidas. Esses motivos de descarte podem ser oriundos basicamente de falhas humanas durante a determinação da causa. O aumento no percentual de remoção das fêmeas do plantel pode levar a um aumento da taxa de renovação do plantel, com a entrada de um percentual maior de leitoas. Isso pode levar a diminuição da produtividade do rebanho com conseqüente aumento dos dias não produtivos (DNP) e, com isso, elevação dos custos de produção. A eficiência produtiva do rebanho da granja é adversamente afetada pela alta taxa de substituição do plantel. Quando a taxa de substituição do plantel é elevada, o plantel passa a apresentar um alto percentual de leitoas e fêmeas de ordem de parto baixas que comprometem a produtividade por produzirem tamanhos de leitegada reduzidos e apresentarem menor taxa de parto (DIEHL et al., 2004).

Um erro comum observado refere-se as matrizes que deveriam ser descartadas por diferentes razões são mantidas no plantel e cobertas para atingir a meta de cobertura semanal, aumenta a probabilidade de falhas de concepção, diminuindo a taxa de parição. Também ocorrem situações de superestimação da taxa de partos, quando os funcionários praticam coberturas excedentes em fêmeas de descarte, para assegurar uma reserva, registrando a cobertura apenas se não ocorrer retorno (SILVEIRA, 2007).

 

7 CONCLUSÃO

A substituição de matrizes descartadas do plantel constitui um dos principais custos de produção da granja. As causas de descarte das matrizes são diversas e complexas, porém, na maioria das vezes, os descartes ocorrem por falhas de manejo, instalações inadequadas e condições ambientais adversas. Devem-se buscar identificar os reais motivos do descarte para que se possam utilizar medidas corretivas que permitam promover uma maior longevidade das matrizes e, com isso, obter melhor produtividade da granja.

 

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