Glauber Souza de Machado
glauber@integrall.org
Ana Luísa Neves Alvarenga
analuisa@integrall.org
Na maior parte dos rebanhos comerciais, a vida útil produtiva da fêmea suína é invariavelmente menor do que o desejável. Entretanto, mesmo sabendo que a estrutura etária (estoque por ordens de parição) é um item crítico para o desempenho do plantel reprodutivo e dos animais dele produzidos, pouca atenção tem sido dada às “taxas de retenção” para cada ordem de parto das matrizes nos rebanhos suínos brasileiros. Uma menor vida útil produtiva promove também a redução na lucratividade potencial do sistema de produção, representando um importante custo de oportunidade atual. Analisando dados de 1999 a 2007, em mais de 200 rebanhos distintos, Gadd (2008) sugere que as perdas na taxa de retenção de fêmeas promovem uma redução que varia de 32 a 43% do faturamento potencial advindo de cada matriz alojada. Além disso, a perda elevada de fêmeas jovens é um importante indicador de baixa qualidade no processo produtivo, bem como de uma situação inadequada em termos de bem-estar animal. Dessa forma, a longevidade das fêmeas, mensurada através da taxa de retenção, da ordem média de parto ou da taxa de descarte, representa uma área de enorme oportunidade para a criação de vantagem competitiva e valor agregado em alguns rebanhos suínos. Essa oportunidade só será captada (e transformada em ganhos concretos) pelas granjas melhor posicionadas em termos de capacitação de equipes e visão ampla do processo produtivo. Torna-se fundamental, portanto, conhecer com profundidade os fatores que influenciam a longevidade das fêmeas suínas e a maneira pela qual esses fatores podem ser manipulados em benefício de uma maior vida produtiva das matrizes.
Considerando que todas as matrizes que ingressam em um rebanho serão removidas, podemos classificar a remoção dessas fêmeas como INVOLUNTÁRIA (ou biológica) ou VOLUNTÁRIA (econômica). As remoções voluntárias são aquelas promovidas por uma decisão gerencial de caráter técnico e/ou econômico, como por exemplo, baixa produtividade individual histórica, risco de baixa produtividade futura, idade avançada, etc. Diversos trabalhos já foram conduzidos para identificar as principais causas de remoção de fêmeas do plantel (D’Allaire et al., 1987; Lucia et al., 2000; Hughes & Varley, 2003). De forma geral, as falhas reprodutivas são sempre a principal causa de descartes involuntários, especialmente para as fêmeas mais jovens, onde se encontra o principal problema de perdas reprodutivas. Para as fêmeas mais velhas, acima do 7º parto, a idade avançada se torna a causa principal de descarte. Lucia et al. (2000) analisaram os dados de 7973 fêmeas removidas por diversos motivos, em 28 rebanhos distintos, durante cinco anos. A tabela 1 apresenta as causas de remoção encontradas pelos autores.
Como pode se observar, as falhas reprodutivas são de fato a principal causa de remoção de fêmeas jovens. Vale também observar que, neste trabalho, os problemas locomotores representaram a segunda maior causa de remoção de leitoas nulíparas e fêmeas de primeiro parto, o que ilustra uma situação prática ainda comumente observada nos dias de hoje. Hughes & Varley (2003) revisaram 12 estudos prévios relacionados a motivos de descartes de matrizes. As falhas reprodutivas foram a causa principal de perdas em 10 dos 12 estudos revisados. Os autores citaram ainda que 61% dos descartes precoces foram devidos a falhas reprodutivas. Na suinocultura brasileira, ainda há significativa negligência na análise relativa da mortalidade de matrizes produtivas. Em termos práticos, encontramos taxas de mortalidade de porcas variando entre 4 e 9% nos rebanhos brasileiros. Muito embora esses valores médios sejam ainda maiores em outros mercados, como por exemplo na suinocultura norte-americana, já é fato incontestável que as granjas brasileiras têm enfrentado um aumento consistente nas perdas de matrizes por mortalidade nos últimos anos. As causas exatas desta tendência de aumento de mortalidade não estão bem estudadas, mas o crescimento em escala certamente contribui para uma menor atenção individual aos animais, aumentando consequentemente a população de risco para mortalidade. Segundo Deen (2003), entre 45 e 65% da mortalidade do rebanho ocorrem entre 4 dias antes do parto e 21 dias após o parto, ou seja, no período periparto. Analisando fatores de risco ligados a essa fase pré e pós-parto, o autor concluiu que os seguintes fatores estavam relacionados à probabilidade de morte de matrizes:
• Estação do ano: mortalidade 70% maior no verão do que no inverno
• Ordem de Parto: leitoas e porcas velhas tinham 16% maior risco de morte do que as fêmeas de parição intermediária
• Indução de parto: aumentou em 18% a probabilidade de mortalidade de porcas
• Assistência obstétrica ao parto: aumentou a probabilidade de morte em 31%
• Dia do parto: porcas que pariram nos fins-de-semana tiveram 9% maior chance de mortalidade do que as demais
• Consumo de ração: a ocorrência de dois ou mais dias de consumo insignificante de ração, na primeira semana de lactação, elevou a chance de morte da fêmea em 20%.
Os fatores citados acima são comuns a muitas granjas e certamente interagem entre si, colocando algumas fêmeas em situação de risco. Investimentos em manejos de alimentação, atenção individualizada, ambiência de maternidade, dentre outros, certamente contribuirão para reduzir a mortalidade de matrizes. O fato de que essa mortalidade se concentra em uma fase relativamente limitada do ciclo, facilita a adoção de manejos especializados e supervisão mais intensa e individualizada dos animais. Vearick et al. (2007) analisaram as causas de mortalidade em um sistema de 12.000 matrizes no Centro-Oeste brasileiro, através da necropsia de 78 fêmeas mortas e/ou sacrificadas. Das 78 fêmeas avaliadas, 39 delas (50%) estavam entre a lactação e o intervalo desmame-estro, o que confirma os dados encontrados por Deen (2003). As principais causas de mortalidade encontradas por Vearick et al. (2007) foram as infecções urinárias (30,8%), as úlceras gástricas rompidas (14,1%) e o sacrifício de matrizes (14,1%). Nas fêmeas lactantes, entretanto, a úlcera gástrica rompida foi a principal causa de mortalidade. Das fêmeas que tiveram infecção urinária como causa de morte, nada menos que 56,5% apresentavam escore corporal visual maior ou igual a 4. Sabe-se que o excesso de peso é um dos fatores de risco para problemas locomotores e também para problemas urinários, com provável interação entre os mesmos. Diversos outros trabalhos evidenciam as diferentes causas de mortalidade, sempre com alguma variação entre granjas e entre países distintos. Mesmo assim, sempre prevalecem os problemas urinários, gástricos e locomotores como principais causas de morte e/ou sacrifício de porcas. Geiger et al. (1999) realizaram 275 avaliações post-mortem, através de análises anátomo-patológica e histológica, em fêmeas mortas oriundas de diversos rebanhos do meio-oeste americano. Os autores encontraram variação significativa na hierarquia de causas da mortalidade, mas relataram que as úlceras gástricas foram os achados mais frequentes.
A mortalidade de porcas representa um custo significativo para o sistema de produção. A metodologia para se apurar os custos exatos é muito variável, entretanto. Mores et al. (2007) estimaram o custo da mortalidade de matrizes em granjas comerciais partindo de alguns pressupostos e calculando os custos ligados à perda parcial do valor genético, custos operacionais e lucros cessantes (pela não-realização da venda da matriz e dos seus leitões). Os autores concluíram que a morte de uma matriz gera, em média, um custo de R$ 790,91 (setecentos e noventa reais e noventa e um centavos). Vale ressaltar que esses são dados levantados em 2007. Dentre os itens de custo levantados pelos autores, 58,6% do custo relacionado à morte de porcas está ligado aos lucros cessantes, seguido do custo ligado à perda de valor genético, representando 21,8% do custo advindo da morte da matriz. Nos EUA, estima-se que a morte de uma matriz gera um custo adicional de 400 a 500 dólares, levando-se em conta o custo de reposição e custos de oportunidade (Tiranti, 2003).
Muito embora tenha grande relevância sobre o resultado financeiro da atividade produtiva, a longevidade em rebanhos suínos é um item que ainda permanece negligenciado em muitas análises. Normalmente, gerenciamos a longevidade através da avaliação passiva e retroativa da “taxa de descartes” e da “taxa de mortalidade de matrizes”. Entretanto, essa abordagem tem pouca correlação com o impacto econômico da longevidade e não permite uma atitude proativa nem tampouco garante precisão nas decisões relativas aos descartes de matrizes. Mas por qual motivo devemos avaliar a longevidade? A necessidade de direcionarmos foco e atenção à análise da vida útil média dos rebanhos deriva de vários aspectos. Primeiramente, trata-se de uma questão econômica, uma vez que está amplamente comprovado que os rebanhos estabilizados com ordens de parto superiores, oriundas de maiores taxas de retenção nos primeiros três partos, são exatamente os rebanhos mais rentáveis (Lucia et al., 2000; Deen, 2003; Abel, 2009; Rutten-Ramos, 2009). As taxas de reposição muito elevadas contribuem ainda para um pior desempenho da prole oriunda desses rebanhos por questões ligadas à qualidade da resposta imune e ao desempenho ponderal dos animais oriundos de fêmeas de primeiro parto. Altas taxas de remoção representam também um problema de ordem logística, por serem variáveis e não consistentes a cada semana. Por último, não se pode negligenciar que a longevidade é também uma questão de bem-estar animal, uma vez que a redução na vida útil da fêmea está comumente associada ao aumento na taxa de mortalidade e aos descartes ligados à condições dolorosas como artrites e laminites, dentre outras patologias (Deen, 2003). Para definirmos como mensurar e gerenciar a longevidade de um rebanho é preciso reconhecer que a longevidade é economicamente importante, sobretudo nas fêmeas novas, até o terceiro parto. A remoção de uma fêmea de segundo parto é muitas vezes mais importante sob o ponto de vista econômico do que a remoção de uma porca de 6º parto. Acompanhe a significância dos dias não produtivos de uma fêmea jovem, em comparação com as fêmeas mais velhas (Lucia et al., 2000).
Fica evidente que os dias não-produtivos de uma fêmea descartada ou morta na primeira ou segunda parição são proporcionalmente muito maiores do que os dias não-produtivos de uma fêmea velha. Nesse sentido, a quantidade de dias de rebanho consumidos para cada leitão produzido será muitas vezes maior para uma fêmea jovem descartada, elevando o custo advindo da sua remoção e reduzindo a lucratividade do sistema como um todo. Dhuyvetter (2000) avaliou economicamente diferentes cenários de longevidade. Para tanto, utilizou parâmetros técnicos e econômicos pré-determinados e simulou situações hipotéticas onde os descartes e/ou remoções ocorreriam desde o primeiro até o décimo parto. A distribuição hipotética do rebanho por ordem de parto ficaria conforme ilustrado na tabela 2, caso 100% dos descartes fossem realizados em uma determinada ordem de parição.
Aplicando o modelo matemático proposto por Dhuyvetter (2000), e posteriormente atualizado e validado por Dhuyvetter & Tonsor (2008), conclui-se que a remoção de matrizes jovens implica em elevado custo para o sistema de produção. Na hipótese de remoção de todas as porcas no primeiro parto, o retorno sobre o investimento torna-se negativo. Sabemos que essa situação não é realista, mas o modelo proposto por Dhuyvetter (2000) é extremamente útil para embasar as estratégias e políticas de descartes do plantel, bem como a gestão da longevidade dos rebanhos. O modelo mostra ainda que, após o 5º-6º parto, os ganhos financeiros adicionais com a manutenção das matrizes é muito reduzido, embora continue crescente até o 8º parto. Assim como já comentado anteriormente, esse trabalho confirma o fato de que a gestão da longevidade é algo a ser aplicado especialmente nas porcas jovens, onde o risco de remoção é alto e onde os custos advindos dessa eventual remoção são os mais altos de todo o rebanho. A tabela 3 apresenta os resultados financeiros advindos dos 10 diferentes cenários de remoção de plantel por ordem de parto.
A estratégia de descarte com base em resultados de desempenho reprodutivo é muito utilizada na prática, mas carrega consigo um alto risco relacionado à baixa repetibilidade (alta variabilidade) dos dados reprodutivos, principalmente quando consideramos apenas os resultados de um único parto. De forma geral, quando um rebanho enfrenta graves problemas de ordem reprodutiva, há grandes chances de que os descartes aumentem, mas que as leitoas de reposição também tenham seu desempenho influenciado pelos mesmos fatores que prejudicaram o desempenho da granja como um todo. Quando isso acontece, a eficiência da política de descarte e reposição torna-se muito baixa ou inexistente. Além de entrarmos com fêmeas que terão baixo aproveitamento do seu potencial de produtividade, aumentamos o percentual de fêmeas jovens e com isso incorporamos todos os demais problemas advindos desse aumento, inclusive de ordem imunológica e, em última análise, sanitária. Há que se considerar, portanto, o risco de descartes motivados por dados reprodutivos individuais, pois tende a ocorrer aumento no percentual de fêmeas descartadas por retorno ao estro, à medida que declina a taxa de parição da granja como um todo. Nesse mesmo contexto, Rutten-Ramos & Deen (2009) realizaram um amplo estudo retrospectivo, analisando 1000 descartes voluntários realizados em 3 rebanhos americanos. Realizaram assim uma simulação de retorno técnico e financeiro para políticas de descarte baseadas em dados reprodutivos, considerando o desempenho comparativo entre as leitoas e as porcas-controle (porcas com histórico e situação similares aos das porcas removidas voluntariamente com base em dados de produtividade). A tabela 4 ilustra alguns dos resultados encontrados pelos autores. Houve interação entre rebanho e estratégia de reposição, reforçando a recomendação de que a estratégia seja sempre específica para cada caso, analisando os dados de cada rebanho em que se pretende elaborar uma política séria de gestão da longevidade. Além disso, houve interação significativa entre o contexto de produtividade do rebanho e o resultado da estratégia de descarte voluntário por produtividade. Em todos os três rebanhos avaliados, quando o contexto era de alta fecundidade (alto número de nascidos), a substituição da porca pela leitoa de reposição mostrou-se uma decisão acertada, com elevação aproximada de cinco leitões vivos produzidos a mais por ano, por fêmea.
Vale ressaltar que as conclusões obtidas pelos diferentes autores são dependentes das circunstâncias em que foram realizados seus experimentos. Daí a necessidade de uma abordagem específica para cada rebanho. Além disso, há que se considerar que as fêmeas primíparas de hoje são quase tão produtivas quando as fêmeas em pico de produção, em muitos rebanhos, o que muda completamente o cálculo de viabilidade da reposição, favorecendo o cenário de descarte voluntário, dentro de certos limites. O gráfico 1 ilustra uma situação dessas, onde as primíparas já iniciam sua vida reprodutiva acima de 14 leitões nascidos, e onde a síndrome de segundo parto não mais existe, através de manejos específicos. Nesse cenário, o custo da remoção de uma porca jovem aumenta e também a tendência de viabilidade para as políticas de descarte voluntário por baixa produtividade, mesmo considerando a baixa repetibilidade dos dados reprodutivos isolados.
Uma das maneiras mais práticas e eficazes de mensurar e gerenciar a variabilidade é através da análise da “taxa de retenção” ou “taxa de sobrevivência”, que deve tornar-se um índice zootécnico em si, dada sua elevada importância para o sistema de produção. Em termos práticos, temos adotado as seguintes metas para as taxas de retenção: da entrada no rebanho até a primeira inseminação: 92-95%; da primeira inseminação até o parto: 95%; do primeiro ao segundo parto: 90%; do segundo ao terceiro parto: 90%, da entrada ao terceiro parto: > 70%. Estas são metas realistas e alcançáveis. A literatura é escassa nesse sentido e apresenta alguma variabilidade. Culbertson (2008) sugere como meta uma perda máxima de 10% (retenção de 90%) entre partos, o que condiz com as metas práticas acima propostas. Já Dhuyvetter (2000) trabalha com taxas menores de retenção, partindo de uma taxa de concepção de 86% a cada parto, conforme ilustrado no gráfico 2.
Fato importante é que as variações encontradas a campo são muito grandes, evidenciando que há enorme oportunidade de trabalho na gestão das taxas de retenção. A figura 3 ilustra a enorme variabilidade nas taxas de descarte por ordem de parto, entre diversos rebanhos avaliados (Deen, 2003).
Uma vez constatada a enorme oportunidade de gestão da longevidade e de melhora nos resultados técnicos e financeiros, e conhecidas as principais causas de descarte, resta-nos concentrar de forma prática e objetiva onde mais temos espaço de interferência, para melhorar a longevidade: a formação adequada da leitoa (maturidade sexual) e excelente manejo reprodutivo; o manejo adequado da condição corporal do plantel; o bom aparelho locomotor e boas instalações, além do foco no consumo adequado de ração na fase de lactação. Estas são as quatro regras de ouro para obter-se o máximo da longevidade das fêmeas modernas, respeitadas as características de cada linhagem.













