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Publicado em 28.01.09 às 11:01 hs

Aumentar o consumo de carne suína no Brasil: por que e como?

Rubens Valentini* 

Mudar a apresentação do produto nos pontos de venda é receita certa para aumentar o consumo
Aumentar o consumo de carne suína significa aumentar a demanda de suínos para abate, o que é bom para o suinocultor! Parece simples assim, mas gera dúvidas na cabeça de alguns: será mesmo que os suinocultores vão se beneficiar de um aumento de consumo de carne suína no mercado doméstico?

A dúvida não é sem razões visto que a divisão de resultados econômicos depende da forma de coordenação da cadeia produtiva e poucos sistemas agroindustriais sofreram tantas mudanças em tempos recentes no Brasil como a nossa suinocultura. E nem todas as mudanças têm sido no sentido de um mercado competitivo, equânime. Deixando este importante e espinhoso tema para outra ocasião, não há dúvidas de que o aumento de demanda de carne resulta no aumento de demanda de suínos para abate. E, considerando que o aumento de oferta de suínos depende de investimentos na(s) granja(s) que exigem tempo para resultarem em aumento de produção, aumento de demanda de suínos resulta em aumento no preço dos suínos. (Inversamente, uma redução na demanda resulta em queda de preços. Sobre isso não há dúvidas!)

Mas há um outro fator importante para buscar o aumento do consumo interno, que é a estabilidade do mercado. Para ilustrar, tomemos emprestada do Luciano Roppa (Brasil: O Consumo de Carnes Passado a Limpo). Entre 2000 e 2007, a produção brasileira de carne suína aumentou 450 mil toneladas e as exportações cresceram 479 mil.

A disponibilidade interna (quantidade de carne suína que ficou no Brasil para ser consumida pelos brasileiros) decresceu 1,2%. O que teria acontecido com o suinocultor, e com a suinocultura brasileira em geral, se o aumento de produção tivesse ficado por aqui? Não é preciso ser tão radical, todos nos lembramos dos sérios problemas de mercado, e de preços, que tivemos todas as vezes que a Rússia reduziu as compras da nossa carne suína!

O parágrafo acima encerra duas constatações da maior importância: (1) o mercado doméstico de carne suína não tem crescido; (2) variações nas exportações se refletem nos preços domésticos. E, (1) + (2) = problemas para o suinocultor!

Como fazer para que o mercado interno cresça e seja menos sensível a flutuações nas exportações? Óbvio, aumentando o consumo per capita da carne suína! Permitindo que os brasileiros façam valer seu paladar e comam mais carne suína nas suas refeições do dia-a-dia. Isto porque pesquisas feitas em conjunto pela ABCS e ABIPECS nos anos de 1994 e 2004 indicam que, do ponto de vista do sabor, a carne suína é a preferida dos brasileiros: em 2004, 49% dos consumidores afirmaram preferir o paladar da carne suína contra 31% que preferiam a carne bovina e 19% que optavam pela de frango.

O(s) problema(s)
Mas, se gostam da carne suína, porque os brasileiros só consomem cerca de 12 a 13 kg por pessoa e por ano em comparação com perto de 40 kg/ano que consomem de cada uma das outras duas carnes? E pior, nos últimos 30 anos a carne suína perdeu 40% de sua participação na cesta de carnes do consumidor brasileiro: nos anos setenta, vinte e seis por cento das carnes consumidas no Brasil era de suínos, hoje somente participamos com 16% no total de carnes consumidas no país! Precisamos de respostas para esse comportamento que só prejudica nossos negócios. Por sorte, as mesmas pesquisas mencionadas oferecem as respostas, às quais não vínhamos dando muita atenção.

Salta aos olhos que o que mais “assusta” o consumidor é o preço: 59% de 848 consumidores pesquisados no Brasil todo acham a carne suína muito cara! E todo suinocultor sabe que o preço no varejo tem pouco a ver com o que ele recebe pelo suíno vivo. Mas, será que o varejo simplesmente exagera na margem que acrescenta na venda da nossa carne? Será que a carne suína vende pouco porque é cara ou, ao contrário, é cara porque vende pouco?

Na discussão do preço de varejo dos suínos não podemos deixar de considerar que todo produto que vende pouco precisa ter uma margem de lucro mais alta pois, de outra forma, não haverá interesse do varejista em trabalhar com a mercadoria. Por outro lado, a forma como hoje é comercializada a carne suína resulta em itens de custo que as carnes concorrentes não mais apresentam. Senão vejamos: o varejo recebe a carne suína na forma de meia carcaça. Com osso, pele e banha, itens que pesam, pagam frete, ICMS e outros impostos e acabam, na maior parte das vezes, jogados fora. Esse valor precisa ser acrescido ao preço dos cortes que vendem! Por outro lado, há o trabalho do açougueiro que precisa “desmontar” a carcaça nos seus grandes cortes (os chamados cortes comerciais) antes de prepará-la nos cortes finais que o consumidor leva para casa (os ditos cortes gastronômicos). Alguém tem visto, nos últimos muitos anos, um açougueiro trabalhando uma carcaça bovina, ou cortando um frango em pedaços? Além do mais, carcaças suínas exigem maior espaço de armazenamento, o que também acaba entrando como componente do custo.

Dá para acreditar que uma melhora na comercialização poderia influir na queda dos preços da carne suína, sem ser no preço do suíno vivo? Acrescentemos, ainda, que os ossos, a banha a pele e os recortes do espostejamento podem ser usados economicamente na indústria, desonerando os cortes que chegam ao consumidor final. Preço alto, afinal, não é causado somente pelo desejo de lucro do varejista.

Tirando de lado a questão preço, ficamos com outras 12 razões apresentadas pelo consumidor para não consumir carne suína. E, observe-se, apenas duas das razões listadas têm a ver diretamente com a carne que produzimos: cor e maciez. Todas as outras 10 razões, todas elas com elevados percentuais de incidência, dizem respeito a fatores externos à granja, são questões de comercialização. E, rigorosamente, todos esses fatores que afetam nossa vida econômica podem ser corrigidos. A questão relevante é: vamos esperar que a indústria e o varejo resolvam-os sozinhos ou vamos entrar nessa briga?

O que fazer?
É preciso melhorar a imagem do produto, a forma como o consumidor vê a carne suína. É necessário lançar um novo olhar sobre a carne suína. E, considerando que somos os maiores interessados nessa questão, precisamos sair das nossas acolhedoras granjas, nas quais temos constantemente introduzido todas as formas de tecnologia, e encarar esse novo campo de trabalho (ou batalha, se preferirem): o mercado. E compete a nós fazê-lo pois os supermercados vendem milhares de itens, os açougues vendem outras carnes, mais procuradas que a nossa, e é improvável que esses varejistas resolvam encarar a tarefa de melhorar a imagem de um produto que vende pouco. Ninguém faz investimentos sem a perspectiva de lucros e é o suinocultor que pode e deve convencer o varejo de que é possível ganhar mais dinheiro vendendo mais e melhor a carne suína. E, se for preciso entrar na indústria para ajudar neste processo, por que não fazê-lo?

Não se trata de esquecer os preconceitos que existem com relação à carne suína, mas reconhecer que apenas 29% dos entrevistados na pesquisa mencionada acham que a carne suína transmite doenças. Este, como os outros “pontos fracos” associados à carne suína, acaba sendo reforçado pela aparência da carne na gôndola: um pedaço de carne suína, sem maior preparo e com uma manta de gordura a recobri-lo reforça a imagem de que o produto é gorduroso e faz mal à saúde. Um corte apresentado em embalagem inadequada, com “água” na bandeja, sem boa aparência e com cheiro desagradável lembra o “chiqueiro” e a possibilidade do produto fazer mal à saúde!

Carne suína bem apresentada, em embalagens atraentes e em porções adequadas às necessidades do consumidor moderno, com cortes variados e sugestivos para as diversas formas de preparo (panela, forno, frigideira, grelha, churrasco etc.) vende! A ABCS já realizou mais de 20 projetos em diferentes tipos de lojas, em diversas cidades de 5 Estados brasileiros e com consumidores dos diferentes estratos de renda. E os resultados são sempre os mesmos: há substanciais aumentos de vendas quando nossa proposta de mais e melhores cortes é adotada. Na dúvida, veja o quadro de resultados. A chave está na “venda” destes conceitos ao comércio varejista em geral. E isso começa na vizinhança do suinocultor, perto de onde ele mora e junto a quem ele vende seus produtos. Além do esforço individual, nossas Associações estaduais podem se juntar à ABCS, ajudando a desenvolver o trabalho nos Estados. Mas uma maior venda de carne suína interessa, também, ao restante da nossa cadeia produtiva: indústria de insumos, de abate e industrialização, frio, embalagens e varejo. É preciso ampliar e, claro, aperfeiçoar o que já vem sendo feito em menor escala.

Campanhas de esclarecimento dos consumidores, assim como das classes médica e de profissionais de saúde em geral, são importantes. Promoções e marketing da carne suína são eficientes instrumentos de alavancagem de vendas. Festas gastronômicas, merenda escolar também são necessárias. Mas, antes de mais nada, é preciso corrigir a imagem do produto no ponto de venda pois, como fica claro do exame do quadro Pontos Fracos por tipo de carne, somos muito mal vistos! E pior, a forma como nos apresentamos reforça a idéia preconceituosa que muitos ainda têm do nosso produto. Mas é importante realçar que a experiência tem demonstrado que a simples apresentação correta do produto é vetor muito significativo de superação de preconceitos. Cortes sem a presença constante da manta de gordura externa, bandejas bem arrumadas, quantidades pequenas e variedade, além de sugestões simples de uso, fazem enorme diferença.

Para os interessados, o site www.abcs.org.br tem o relatório completo da pesquisa mencionada, detalhes dos conceitos aqui apresentados e resultados alcançados, além de material fotográfico produzido para os eventos mencionados. E, para os mais interessados, a ABCS pode disponibilizar um completo vídeo sobre como cortar e apresentar a carne suína.


* Rubens Valentini é Presidente da ABCS.

fonte: Revista PorkWorld -Edição 46.



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